quinta-feira, agosto 06, 2009

Túlio Vianna quer que você seja feliz

"AFRICAN, n. A nigger that votes our way."
— Ambrose Bierce, The Devil's Dictionary

O Brasil é um país rabugento, mal-humorado, resignado, rude, xenófobo e com regras de etiqueta absurdas, o que é a perfeita descrição que o brasileiro médio faria da Suíça ou da Dinamarca. Os brasileiros que já ouviram falar de Suíça ou Dinamarca, é claro.

O Homo brasilis padrão, o brasileiro com cultura brasileira, é tão familiarizado com humor quanto Paris Hilton é familiarizada com a Teoria do Campo Unificado.

Existem alguns fatores que podem indicar o grau civilizatório de uma população. Cito os óbvios: vasto domínio da Antigüidade clássica e fenomenologia alemã, manipulação de DNA, língua grega, literatura americana, pornografia russa e pena de morte podem ser pedras de toque para diferenciar o Canadá de Serra Leoa. Não obstante, nada pode definir melhor a evolução de um povo do que o humor. Simplesmente porque o humor, in essentia, não passa de uma maneira elegante de sermos cruéis.

Não foi o próprio Freud quem disse que o primeiro humano que insultou o seu inimigo, em vez de atirar-lhe uma pedra, inaugurou a civilização?

Escrevi, semana passada, no blog-boteco do meu amigo Gabriel Moura, um texto sobre os ataques de pelanca éxibidos pelo Sr. Prof. Dr. Túlio Vianna (tão felizes agora?), arauto-espadachim do politicamente correto, do patrulhamento ideológico, preocupadíssimo com a objetificação das mulheres no flash mob #lingerieday, no Twitter. O mesmo Túlio Vianna que se aproveitou de uma das maiores tragédias do estado de SP para fazer proselitismo pro domo sua.

Túlio Vianna prefere maneiras pouco elegantes de sermos cruéis.


Ontem (para padrões notívagos), Túlio estava no programa
MTV Debate, deblaterando em meio a uma bazófia levada a cabo por Mr. Manson, do extinto Cocadaboa (nome politicamente incorreto o suficiente?); o humorista Maurício Meirelles; o advogado Paulo Rossi; Humberto Adami, da Secretaria de Igualdade Racial; e Tiago Lopes, um cabeleireiro gay aleatório admitindo que ri de piada de gay e mandando cada um cuidar da sua vida e parar de encher o saco. Tudo não seria uma algaravia com a afinação de um coro multitudinário sem que o debate fosse "mediado" por ninguém menos do que Lobão. É algo como oferecer migalhas para conter um buraco negro.

Todo o busílis foi causado por um arremedo de piada de preto propalado por Danilo Gentili, do CQC, que participou do programa por telefone. Podemos exercitar nossa crueldade praticando uma vivissecção da homiziada.


Ridendo castigat mores et monstrat caries

O humor, assim como os filmes de terror, por definição, é extremamente moralista. Por moral, não se deve entender que deve seguir as mesmas regras da educação moral e cívica, ou das aulinhas de religião, muito menos do clube da vigilância sanitária politicamente correta. A moral encontrada em Aquino, Kant ou Habermas funciona por congraçamento de investigações teleológicas a respeito do dever-fazer. O humor, a própria roupa do Rei, aproveita a moral para fazer o contrário: põe o homem a nu, sozinho, com o máximo de público possível, para expor o ridículo do resultado do fazer-errado.

O humorista não deve se vestir como um padre, nem ter o recato de um paladino (esse é o traje da patrulha). Esse profissional da prostituição social tem como maior realização na vida se alegrar por viver num mundo imperfeito. É um ser condenado ao inferno por excelência. Um humorista, como ser moral, não tem a qualidade da sua piada medida pelo quanto conseguiu agregar, pelo tanto de inclusão social provoca, como se precisasse de cotas raciais. Pelo contrário, o humorista tem seu valor medido por pH.

O palhaço Sr. Frango, interpretado por Dalmo Latini, se despediu dizendo: "O palhaço é a única pessoa no mundo que ri da própria desgraça". Confirmando o que nunca falhou em toda a história, um palhaço tem a ensinar a um jurista toda a moral que falta a este último. Rir da própria desgraça!, e já temos um império de "relações de poder e opressão" supostamente enxergado por Foucault ruindo como se botássemos fogo no circo.

O brasileiro, que se considera o povo mais despojado, alegre e humorado do planeta, acredita piamente nisso por viver num país sem regras,
o que significa falta de seriedade. Não é sinônimo de humor. O humorista tem método. Ele tem o dever de expor o lado ruim do homem. Mas também o lado ruim do destino. O lado ruim da vida. Como cínico, vê as coisas como são, não como deveriam ser.

O humor no Brasil é um humor Casseta & Planeta, pré-fabricado e confortável. É algo como: "Hey, você, telespectador! Observe eu fazendo uma paródia dele!" — e segue um sarrozinho com o político, o jogador de futebol, a celebridade... a exceção.

Toda a comédia, desde Aristófanes, não é confortável, não é auto-defensiva. Ela sacaneia o político, mas botando a culpa em quem o deixou ali. Seu alvo é o político, mas também o próprio humorista e, coisa proibidíssima no Brasil, a própria platéia. Se no Brasil um humorista pede desculpas por fazer uma piada de vegetarianos numa churrascaria, em qualquer país civilizado as piadas de negros são feitas por negros no gueto, assim como as de judeu.

Woopy Goldberg, Woody Allen, Charles Chaplin, W. C. Fields, Karl Krauss, Ambrose Bierce, Henny Youngman, Fran Lebowitz, O Gordo e
O Magro, Os Três Patetas, Monty Python... dá para encontrar quem fuja à regra?

Não há conforto no trabalho do humorista. O contraste é que ele busca. O abjeto com o que deveria ser certo — e, se o fosse, não seria engraçado. Quem já leu A Divina Comédia, adorou o Inferno e parou antes do terceiro ciclo do Paraíso conhece bem a regra. Toda, toda pessoa que tem ódio de Diogo Mainardi sabe bem o que é o desconforto de alguém rindo da própria condição de Paulo Francis piorado, embora no fundo concorde com cada linha do que ele escreve. Se quer conforto, pode ler auto-ajuda ou Paulo Coelho. Só invente de ler Dostoiévski, Kafka ou Montaigne se quiser se sentir mal. Coragem, ó covardes ignaros!


Túlio Vianna, nosso Grande Irmão

Há atos que merecem encômios, outros que merecem desmembramento. O Sr. Dr. Prof. Túlio Vianna vive num mundo aparte da realidade, em que um desmembramento provocado por um psicopata merece carinho da sociedade, um elogio carinhoso de homens a mulheres talvez mereça um de
smembramento.

Nesse mundo sagrado de Direitos Humanos, Túlio força e expreme a realidade para se encaixar em sua ótica doidivanas. Como para ele tudo o que existe são relações de poder, palhaços não existem, profissionais liberais sem patrão não recebem mais-valia e se alimentam via fotossíntese e, claro, toda piada que exponha alguém ao ridículo é opressão.

Talvez seja de bom tom perguntar ao Sr. Prof. Dr. Túlio o que ele acha que são as relações de poder Vigiar e Punir Law & Order de um vídeo do humorista negro Chris Rock comentando para a comunidade negra, justam
ente, sobre a violência policial...



A verdade é que, a exemplo do Big Brother de George Orwell, Túlio Vianna quer que sejamos felizes. Se ele considera algo opressão, politicamente incorreto, esse algo deve ser censurado. E assim se constrói sua ditadura do "Eu luto pela sua felicidade, logo, me obedeça". É sempre uma suposta rinha entre mais fortes e mais fracos. Se um psicopata pobre destrói o corpo
de uma menina rica, é politicamente correto. Se um branco faz piada de negro, é opressão.

Tudo se resume a assumir Vigiar e Punir como verdade dogmática:


Túlio, que passou a semana passada falando sobre objetificação da mulher, não soube responder no debate se o humor é objetivo ou subjetivo (quando você está sendo corrigido reiteradamente por Lobão, a coisa está, digamos, preta pro seu lado). Disse que é "social". E isso é objetivo ou subjetivo, doutor?

Mr. Manson, que já sofreu com a patrulha, comentou sobre a falta de liberdade em fazer qualquer piada agora. Túlio obtemperou: "Mas há a patrulha da patrulha". Entenderam? Hay que censurar, pero sin sofrer las criticas, jamas! — do contrário, do que o advogadozinho viverá? Trabalho honesto e burguês, para deixar Slavoj Žižek louco?!

Batendo na mesma tecla o tempo todo e sendo firmemente refutado mesmo em suas frases interrompidas (ainda acho que o convidam para tantos debates simplesmente porque alguém precisa levar uma sova em público defendendo uma idiotia, e ele é um homem sem concorrência), Túlio apela para seu clichê fácil e sempre disponível: brancos oprimiram negros. Logo, toda correção política é pouca. Cotas para humoristas negros já!

O negro, "subjugado historicamente" (será que Túlio Vianna faz idéia de quem é que iniciou a escravidão na África? Quem escravizou judeus no Egito?), é sempre uma vítima, numa relação com o branco. Mesmo quando rouba, mata, estupra, tortura. Para ser caudatário de tamanha estultícia, Túlio inventa de estro próprio uma teoria absurda: o branco oprimiu o negro na escravatura, e depois da abolição, surgiu a piada de negro, para o branco "se manter" em sua "superioridade"!

Qualquer chimpanzé desqualificado (fica livre a interpretação) pode conhecer os versos de Gregório de Matos para perguntar quando fizeram a primeira piada com negros no Brasil...

Mais que tudo, pergunto-me se o doutor sabe que o racismo europeu, muitas vezes, surgiu não por opressão e sentimento de superioridade, mas sim por medo. Hitler mesmo é capaz de falar das capacidades superiores dos judeus em lidar com a economia. Que tal ler Carpeaux, Houellebecq, Bachelard, Bordieu?

E os judeus (que chamam os gentios de goyim, que originariamente significava "gado"), que foram escravizados por negros? Quando Champinha estupra Liana Friedenbach, pela regra de "subjugamento histórico", está se vingando ou confirmando a exploração?

Para Túlio, além de toda a psicologia se resumir a "sujeito" versus "objeto", tudo se resume a uma luta social, uma forma de opressão. Um skinhead espancando um negro ou um gay é força de opressores sobre oprimidos. Chamar um amigo negro de "azulão" é... bem, é claro, a força de opressores sobre oprimidos. É denegrir. Não tem escapatória. É tudo a mesma coisa.

Por outro lado, fazer piada de português é, digamos, emancipação, pois nos vingamos dos colonizadores. Mesmo que sejamos seus descendentes. É a mesma regra que diz que um negro assaltando, estuprando ou o que for está sempre autorizado. É isso que Túlio chama de justiça.

O problema do humor, para Túlio, é justamente esse: no deboche, o homem é exposto a nu, sozinho, na solidão da sua consciência, naquele seu fundo insubornável de que falava Ortega y Gasset. Sem nenhum "contexto histórico", marxismo ou teoria histeriforme de quinta categoria para mantê-lo na confortável posição de coitado e perseguido político.

A twitteira SrtaT admoestou: "o dia em que você não puder fazer uma piada sem correr o risco de ser interpelado pelo ministério público, será fascismo. Minoria my ass. eu é que sou a minoria mais aviltada ultimamente sendo fumante."

Restam algumas dúvidas: nessas "relações" de poder, chamar Lula de analfabeto constitui preconceito ou não? E piada de argentino (que, por sua vez, nos chamam de macaquitos)? E o que é chamar Champinha de psicopata?

E como disse o Morroida, posso chamar Obama,
que é o chefe do maior império do mundo e portanto "superior", de preto, macaco e nigger que não vai dar nada?

Concluo: e chamar esse merdinha desse Túlio Vianna de mula-sem-cabeça é preconceito? É degradante?

É claro, refiro-me às mulas.