sábado, julho 05, 2008

Wagner, por Mencken

ouvindo: Richard Wagner - Pilgrims Choir
frase do dia: "Um segundo casamento é o triunfo da esperança sobre a experiência." — Samuel Johnson


Nenhum homem entendeu as mulheres tão bem quanto H. L. Mencken. Sua análise de Wagner fala por si:

Wagner

Quando se contemplam as estupendas realizações de Richard Wagner, é difícil deixar de imaginar até que ponto ele teria chegado se não tivesse sido tão atormentado por suas duas detestáveis mulheres. A primeira, Minna Planer, opunha-se implacavelmente à sua obra e fez de tudo para reformá-lo. Achava Lohengrin incompreensível e Tannhäuser indecente. Sua esperança, até que Wagner a chutasse, era a de que parasse com aquilo e se dedicasse à composição de óperas respeitáveis à maneira de Rossini.

Minna era cantora e tinha cérebro de cantora. Parece claro que a presença de uma mulher destas — e Wagner viveu com ela durante 20 anos — deve ter sido um fardo tenebroso sobre o seu gênio criativo. Nenhum homem consegue ser indiferente aos preconceitos e opiniões de sua mulher. Ela tem oportunidades demais para enfiá-las pela garganta dele. Se não pode obrigá-lo a ouvi-la vociferando e balindo, pode fazê-lo com uma voz fanhosa e hipócrita. Supor que ele consiga prosseguir no seu trabalho sem lhe prestar atenção equivaleria a supor que ele trabalhasse sem ligar para uma dor de dentes, para sua consciência ou para o zoológico da vizinhança. Apesar de Minna, Wagner compôs um punhado de dramas excelentes. Mas se a tivesse envenenado no começo de sua carreira, teria composto muitos outros mais, talvez até melhores.

Sua segunda mulher, a celebrada Cosima Liszt-von Bülow, era bem mais inteligente do que Minna, donde podemos presumir que sua presença na produção musical de Wagner tenha sido menos prejudicial. Infelizmente, parece que ela também mais o atrapalhou que ajudou. Para começar, seu rosto era horroroso — e nada é mais prejudicial para a faculdade criativa do que a constante presença da extrema feiúra. Cosima, de fato, lembrava as mulheres de hoje que se metem em política: até mesmo Nietzsche, um jovem romântico, teve de enlouquecer antes de se apaixonar por ela. Em segundo lugar, há boas razões para se acreditar que, até a morte de Wagner, ela secretamente acreditava que seu pai, o velho Franz, era um músico muito melhor. Esposas invariavelmente incorrem neste erro: encontrar uma que consiga separar o homem de gênio do mero marido, e então avaliar o primeiro com exatidão e justiça, é raríssimo. Toda mulher respeita seu pai, mas sua visão do marido é misturada com o desprezo, porque só ela sabe dos óbvios estratagemas que usou para capturá-lo. É difícil para ela, sendo tão agudamente consciente das fraquezas do homem, dar o devido peso à dignidade do artista. Cosima, além disso, tinha péssimo gosto, o que pode ter agido destrutivamente sobre o pobre Wagner. Há partes de Parsifal que a sugerem fortemente — muito mais do que sugerem o autor de Die Meistersinger.

Não estou depreciando Wagner: ao contrário, respeito-o, talvez excessivamente. É desconcertante pensar na obra que deixou, com Minna e Cosima azucrinando seus ouvidos. O que me interessa é perguntar se ele teria ido muito além sem a presença daquelas duas e de seus voluntários assistentes. A idéia é fascinante, mas também alarmante. Há um limite além do qual a beleza pura torna-se dilacerante. Em Tristan und Isolde, no Anel e até em trechos de Parsifal, Wagner força sua música até perto deste limite. Um pouquinho à frente fica a quarta dimensão do espírito — e a loucura.


(Henry Louis Mencken, 1924)

2 pessoas leram e discordam:

. disse...

sua frase do dia vale para qualquer tipo de relacionamento

p.s. não li o post

Thiago disse...

http://www.apostos.com/wagnerebeethoven/resposta.jpg