quinta-feira, dezembro 13, 2007

Faroeste Caboclo? Prefira o Bang-Bang americano.

"O que explica o sucesso de muitas obras é a relação ali encontrada entre a mediocridade das idéias do autor e a mediocridade das idéias do público."- Chamfort


Há uma decisiva e já famosa análise da música Eduardo e Mônica, da Legião Urbana, a circular a internet há uns bons equinócios. Costuma ofender muitos perobos, feministas, pós-punks, menininhas de franjinha e demais criaturas sobejantemente feias da sociedade, haja visto seu autor não cansar sua facúndia exprobando a pau e pedra toda a falta de tato desses indivíduos, porfiados que estão em considerar Renato Russo um gênio alteroso e alumiado, crítico da envilecida classe mídia, preconceituosa e intolerante - e sem atentar para o fato de que seus pueris faniquitos estéticos são os mais ditadores e caga-regras produzidos pela própria Kulturindustrie que criticam...


Mas eis que tergiverso, descumprindo meu pacto de objetividade. O fato consumado é que, por mais caricatural, sexista, boba e frugal que seja a letra de "Eduardo e Mônica", ela só faz por referir aos enfadonhos clichês do pensamento de seu autor. Por outro lado, "Faroeste Caboclo", a mais comprida música que as insuportáveis rádios brasileiras têm coragem de tocar (e a mais comprida que a maioria de seus ouvintes canta by heart), além dos já referidos lugares-comuns, atenta-nos insofismavelmente, através de uma penca de paradoxos, para como Renato Russo era um péssimo escritor. Como todos os pseudo-músicos/poetas que tocam MPB em rádios rock e rock em rádios MPB.

A história é bem conhecida de todos. Um gaudério adolescente em falta de uma bela surra percebe ter envelhecido e vai para Brasília (terra mater Urbanae Legiis). Enceta uma vida mais apascentada na capital federal, apaixona-se por uma anódina fêmea desprovida de qualquer seqüela de personalidade e inteligência, terça armas com um rival traiçoeiro e morre como herói, sem fazer absolutamente nada de invejável ou admirável na vida.


Contudo, embarafustemo-nos mais nos ubérrimos e decorados versos da canção (já de per se nada estésicos, a ponto de "rimar" com lugar, trabalhar com Taguatinga ou, horribilis super omnes, morrer com TV).

Logo de início, há um revelador solecismo indicador da, digamos, postura dúbia que Russo terá com João durante toda a música, quando o último é enviado ao reformatório, "onde aumentou seu ódio diante de tanto terror". Em meio a uma inversão da prosódia e da acentuação que faria Camões se suicidar numa caixa d'água, perguntamos se queremos render loas a um herói com ódio gratuito por tudo que não seja ele mesmo e seu irrefreável instinto para a derrocada. Também se o "terror" impingido é obra dos reformadores ou reformados - mas, para uma criança desordeira, que prescindiu de uma bela cintada nos entrefolhos nus, supor que tamanho horror não seja conseqüência direta de seu próprio desvario é um achincalhe à toda a sabedoria.

Já crescido, Santo Cristo pisa em Salvador e, em mais um momento doidivanas, só conhece a rodoviária. Toma um café com um desconhecido boiadeiro prestes a perder uma viagem para Brasília. João "lhe salva" (?!) tomando-lhe a passagem, enquanto o outro macho ocidental fica sem visitar a filha, ainda agradecido pelo embuste que ele mesmo logrou. João nem pagou pela passagem? Então, como assim "o salvou"?! Aliás, o homem não precisava ser salvo pois ia perder o ônibus? A grande mágica do super-herói João, então, foi sair do bar e conseguir entrar no veículo a tempo?! E o homem ainda ficou feliz, perdendo passagem, dinheiro e deixando a filha na mão?! Se um sujeito desses é assaltado, também agradece de joelhos à Divina Providência pela sorte do dia?!

Em Brasília, após trabalhar como carpinteiro, João prefere a vida de traficante junto a um primo longínquo, Pablo. Começa a roubar "sob uma má influência dos boyzinho (sic) da cidade". Aparentemente, quem rouba em Brasília são os playboys, não os mano... É mesmo um herói. Em pouco tempo, no entanto, João enamora-se por Maria e recomeça uma vida menos desregrada, sem que a letra nos mostre que a moça ofereceu alguma resistência a essa (e a outra) investida.

Mas logo João recebe uma bizarríssima visita de uma espécie de caça-talentos de um grupo terrorista. A proposta inclui deixar bombas em bancas de jornal e colégios infantis, e também "proteger um general". Além de nos perguntarmos onde diabos essa nova personagem secundária descobriu a verve para a violência de Santo Cristo, esta espécie de Fernandinho Beira-Mar, em pleno momento de vida escorreita e antes do advento do Google, também é de se questionar que caralhos de banda podre do Exército nesse país pode auferir algum lucro desmilinguindo jornaleiros e pivetes, além de quem, com um contigente de milicos frondoso como o nosso (e que nunca têm trabalho), precisa escalar um indisciplinado zé-arruela de fora das fileiras fardadas para a labuta suja.

(a visão de Russo far-se-á clara em breve, com mais uma de suas típicas paneleirices contraculturais e "cabeça", atacando a mesma mídia infensa que vendia seus álbuns como pãozinho quente.)

Mas João foi sensível ao encontro com a personagem que some misteriosamente da trama. Russo diz:

"Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar"


Estava certo?! No quê? Se seu futuro tornou-se incerto, foi justamente por "estar certo". Sem falar que essa é a substituição mais rápida de que se tem notícia, não dando tempo nem para que o pileque transmute-se em ressaca... nem o McDonald's tem um sistema de demissão e contrato tão eficiente!

Santo Cristo volta-se então para Pablo, seu antigo primo cúmplice:

"Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar

Pablo trazia o contrabando da Bolívia
e Santo Cristo revendia em Planaltina"

Trata-se, no mínimo, da pior "rima" da história da língua portuguesa, última flor do Lácio, bela e inculta!!! "Armar" rima tão bem com "Planaltina" quanto rima com "Bolívia", perdida na mesma frase। É para obrigar seu autor a engolir uma caixa de cotonete usado, um a um!! Será que alguém é capaz de pronunciar Planaltina de modo a que rime com maracujá?!

Porém, notemos que, além de se escalacrar em sua tentativa de bon vivant, João, não mais que de repente, não volta mais para casa após ficar trêbado!! Deixa todas as suas cuecas para Maria Lúcia lavar (Russo, apesar de ser a bicha mais respeitada do país junto a Caetano Veloso, não deixa de ser barbudo e machista ao construir a insonsa e ultra-submissa personagem Maria) e vai dormir, grogue e a feder, por meses a fio, sabe lá Russo onde.

Como Russo não lera A Origem da Tragédia e todas as suas tentativas de dar suspense até aqui deram com os burros n'água, insurge-nos, sem mais explicação, o brucutu Jeremias, com a única função ontológica de rivalizar com João em tudo ("Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo / E decidiu que com João ele ia acabar"). Não se sabe com que raios de "planos" um traficante fodástico poderia querer acabar (afinal, o grande "plano" de Santo Cristo é ser um muambeiro de merda pra conseguir pagar algumas contas enquanto não toma vergonha na cara de voltar para casa), mas Russo precisava de um vilão a todo custo, que irá comer sua namorada Maria Lúcia (e chega a se casar!!), tardia situação em que o alesmaiado João resolve voltar para casa e dar algo próximo de uma satisfação por sua histeria.

Finalmente, eis que é chegada a hora de um duelo abusivamente sem cabimento em meio a uma favela - e que até a TV anuncia! (alguém mais supos outro canal?) Apesar dos xingamentos desbaratados (João é chamado de "porco traidor", como se tivesse votado nos tucanos, e Maria Lúcia é chamada de "falsa"... por Jeremias) e de poucos tiros, a saraivada de incongruências que aí se sucedem consegue fazer todo o resto da canção parecer tão bem concatenado quanto os Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem.


Em mais um abuso de clichês, Russo tenta demonstrar o caráter insidioso de Jeremias fazendo-o atirar pelas costas de João. Aqui se levanta o mais estrepitoso revide a essa música: Que porra de arma João levara para o embate?! Nenhuma!! Isto posto, até um golpe de canivete pela frente e bem avisado é de uma abjeção atroz!

Imaginamos João aproximando-se, milímetro a milímetro, enquanto Jeremias aponta a arma e faz graçolas: "Isso, João, vem cá, vamos ser amigos... isso, só mais um pouquinho... *BANG!* Eheee!!" - será mesmo que Russo precisava de um lugar-comum tão estúpido quanto um tiro nas costas, se esqueceu de armar o desafiado ao menos com uma pedra ou uma ripa com pregos?!


Para piorar, apesar do trânsfuga Jeremias ser capaz de tal ato, também é capaz de observar pacificamente o resplandecente ressurgimento de Maria Lúcia, aguarda Santo Cristo carregar e empunhar a engenhosa carabina Winchester .22 (mesmo ferido mortalmente!) e ainda desferir cinco tiros de espingarda (que se dobra no meio a cada disparo), tudo sem esboçar reação. Muito condizente com quem atira pelas costas... ou deveríamos dizer, condizente com um autor que leva alguém para um duelo sem arma?! (note-se, também, que quem possuía a espingarda era Pablo, e sabe-se lá como ela foi parar nas mãos de Maria Lúcia, a essa altura casada com Jeremias)

Também estranhamos Maria Lúcia "se arrepender" (de ter dado pra quem?!) e morrer junto com (sic) João. Um dos tiros, acaso, teria ricocheteado na sirigaita? Ou João resolveu mesmo descontar o ódio acumulado no reformatório? Quem matou Maria Lúcia? Se foi João, por que diabos ele é "seu protetor"?! Se não foi, caralhos cá que me fodam, ele também não foi seu protetor!!


Para explicar a paranóia de generais terroristas e ameaças invisíveis ao pobre povo (a patuléia massificada que tanto idolatra a Legião Urbana), Russo ainda arranja espaço para cutilar com escarninho quem estava trabalhando e não pôde interromper sua faina para acompanhar tal odisséia: "E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV". Supõe ele que quem assiste a Globo é só a "alta burguesia", e não a dona Serafina? Mais uma rima infeliz e ele teria espezinhado a revista Veja...

Faroeste Caboclo tem tantos versos se contradizendo, ou caindo no mais descucado desatino, que terminamos, junto com a música, a pinçar sua conclusão: "E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter / Ele queria era falar pro presidente, / Pra ajudar toda essa gente / Que só faz sofrer" - mas, afinal, que gente?! E gente que só faz sofrer não precisa de ajuda - precisa de porrada!!