quarta-feira, fevereiro 14, 2007

No Limiar da Última Esperança

ouvindo: Apocalyptica - Romance
frase do dia: "(...) Manter-se exposto, em outras palavras. Isso, naturalmente, equivale a se converter. É uma medida radical e pressupõe um estado de desespero. Mas se todos os outros métodos falham, como é inevitável, por que não essa medida extrema - converter-se? É só às portas do inferno que surge a salvação." - Henry Miller

dedicated to Beatriz Kavanagh, for your light and your darkness.


Perguntam-me que poetas admiro. Posso citar os óbvios entre meus prediletos: Dante, Baudelaire, Shakespeare, Goethe, Gregório de Matos, Catulo, Milton, Heine, Augusto dos Anjos, Tugore, Virgílio, Blake, Hafiz, Rimbaud, Brontë, Horácio, Golçalves Dias, Schiller, Homero, Poe (só lhe conheço 3 poemas, mas "O Corvo", a mim, é a mais perfeita e demoníaca harmonia entre inspiração e técnica que a literatura conheceu). Os maiores de diversas épocas e países, mas, ainda assim, os óbvios. Não gosto de óbvios. Se é pra surpreender, sugiro Paul Celan.

Há poetas insípidos, exsurdando a vetusta naftalina de seu claustro inatingível sem uma palavra que toque os corações e cérebros que vivem no centro do vórtice do caos daqui de baixo. Há outros que, supõe a Sociologia, são geridos e criados pela massa - e, nas raras vezes em que esta acerta, nos aponta um mau poeta. Em tempos de raras coisas novas a dizer, alguns se esmeram em espatifar a sintaxe para vê-la reconstruída por seus companheiros acadêmicos, mancomunados na propaganda literária obrigatória. Um neoparnasianismo oco, sem a linguagem dos eruditos, e usando a língua de um suposto e inexistente povo para falar-lhe nada.


Não há espaço, no mundo da Grande Guerra, para falar da poesia tranqüila, alegre, despreocupada - um simples hino para passeatas de protesto (pergunto, usando as palavras desse próprio Celan: "Para onde foram, se não há lugar nenhum?" - 'Havia Terra'). Isso é por demais cotidiano. Urge elevar-se, suspender-se (Selbstaufhebung?), transcender. A poesia é para poucos - como o é a engenharia e a medicina. Em meio ao maior conflito militar da história do mundo, não cabe mais falar buscar a arte do cotidiano e das garotas inócuas e com uma beleza vazia nas praias. O poeta não nasce do povo, nasce do mundo. Dos acontecimentos, não das pessoas. Ele está onde as coisas acontecem. Ninguém desce volitivamente para uma temporada no Inferno por falta do que fazer.

O tema da grande poesia é mudo e ensurdecedor, uma palavra com cheiro de cadáver e mãos de assassina, que ocupa toda a vida, dando cor até ao vazio e à morte. É onipresente, é obrigatória como uma trombeta apocalíptica, não tépida e imóvel como música ambiente.

"Não há anjos em trincheiras", notou Bukowski. O sentido da poesia do povo foi perdido quando o povo morreu. Adorno sentenciou: "Nâo se pode escrever mais nenhum poema após Auschwitz". Nâo se fala de corda em casa de enforcado. Não se busca mais uma conversa bizantina sobre a Idéia vaga e informe após a Shoah. Infelizmente, a notícia pode demorar e se enfraquecer por vir de longe. A arte só está no que se move, entendendo e trabalhando o caos da Guerra, justificando a vida eternamente em risco.


Adorno desafirmou seu dito graças a Celan. Nâo se trata, em Celan, do irônico desabafo político de Brecht. Aqui, o sentido abstrato reconstrói espaços. A palavra contém sua própria esfera de realidade, e o poema constrói suas próprias notas de rodapé. O sentido não está no poema, é criado pelo que está no poema. A sintaxe está no limite do inteligível, no exato limiar onde ela constrói seu espaço a partir do que destruiu. E não mais fala-se por um simbolismo enleado e com vistas a atingir sentidos como tato, olfato e paladar - mais ligados ao erotismo que os outros. A voz aqui é materialista e explosiva como um bombardeio dos ME-109 em plena Segunda Guerra.

Agora sim, é possível dizer que um poema pôde ser realizado após o horror nazista. Henry Miller disse, certa feita: "Eles sabem cantar sob tortura". No filme 'O Pianista', vemos soldados da Waffen SS divertindo-se com a música dos judeus (sempre considerada "inferior" num país com sobejante tradição musical). "Ei, toquem, dancem, vocês aí, quero ver vocês sorrirem!". Em 'Fuga da Morte', de Celan (inspiração de Polanski?), o homem "manda cavar uma cova na terra / ordena-nos agora toquem para dançarmos". Os acordes já estão nos dedos do leitor.

(para quem não a leu, veja o post anterior.)

Talvez só perdendo para 'Waste Land', de Eliot, em número de análises feitas para uma poesia do séc. XX, 'Fuga da Morte' usa a sempre difícil técnica da repetição embaralhando conceitos e palavras, adicionando e modificando idéias a cada estrofe. A mão de quem joga pôquer com a Morte (palavra masculina, em alemão). Estranhamente, recebe-se curingas.


O "leite negro" [schwarze Milch] bebido todo o tempo (obrigatoriamente) parece ser a oferenda que confunde a sanidade. Apostaria que é mais conseqüência que causa. Bebe-se enquanto cavamos uma cova nos ares. Ninguém, senão Celan, descreveu, ou reescreveu, com tão profunda inspiração ("ar fresco" seria um paradoxo vil), a tóxica existência num campo de concentração. A cova de todos está no ar, etérea, fumaça que ainda não morreu de todo. Não se rezou o kaddish. O ar é um pedaço de nossos pais, irmãos, filhos. Não se sabe onde um termina e o outro começa. Quando nos tornamos [werden] cinzas, os limites entre os corpos, a fronteira da pele é perdida. Só há "nós", impedindo o "eu", lírico ou não. Os judeus sempre foram unidos. Unem-se agora como névoa e pó. Unidos, mas apagados. A cova nos ares é de todos. Lá, "não se deita apertado". Se Nietzsche não matou Deus, o III Reich fez o trabalho.

O homem de olhos azuis brinca com as serpentes [Schlangen]. Em todas as culturas humanas é um símbolo que causa medo (nosso código genético as identifica como seres de risco). O perigo das serpentes já foi advertido nas Escrituras - a palavra hebraica 'nachash' significa tanto 'serpente' quanto 'cabeça' ("Não há veneno pior que o das serpentes" - Eclesiástico 25:22). Não foi a primeira vez que o "povo escolhido" foi perseguido por suas picadas ("Então Deus enviou contra o povo serpentes ardentes, que morderam e mataram muitos" - Números 21:6). Trata-se aqui, claro, de uma alegoria com uma cabeça sagaz, porém mortífera. "A serpente [cha nachash] era a mais astuta das alimárias dos campos de Deus" - Gênese 3:1. A razão que brincou com astros (estrelas reluzentes) e a queda de maçãs agora também brinca com Panzers e zombarias racistas (posteriormente, também brincaria com bombas atômicas).

A perseguição propagada não é só tida como natural pelo "superior" homem de olhos azuis - ela é necessária, um motivo para comemoração. O próprio sacrificado, como Isaac, deve alegrar-se ao ser preparado para o hecatombe. "Ele nos ordena tocar para a dança". A vontade Dele foi feita. Mas até os alemães terão de "respirar" o tal "problema judeu". De seus próprios corpos queimados, os judeus fazem sua resposta ao Zyklon-B.


Não obstante, não é um relato "social". Se há alguma sociologia, é a dos mortos. "Os mortos - eles ainda mendigam, Francisco" ('Assis'). É a voz de todo um povo, mas idiossincrática. Em muitas vozes, não se distingue nenhuma palavra. Em muitos gritos, ininterruptos, o terror se torna hábito. "Até a curiosidade e o terror se cansam". Assim falou Zaratustra. O retumbar da guerra produz uma tumba muda. "Fizemos silêncio sobre / silêncio de morte, grande" ('Stretto').

A tristeza, porém, não encontra lugar. É preciso um pouco de tranqüilidade para se deprimir. E os olhos, por detrás da fumaça, estão secos demais para chorar. "Olhos e boca estão por demais abertos e vazios, Senhor. / Bebemos, Senhor. / O sangue e a imagem que no sangue havia, Senhor." ('Tenebrae'). No silêncio, há sempre uma verdade. Também na morte. "A morte a todos nos torna solitários", afirmou Heidegger (chamado, por sinal, 'Mestre d'Alemanha'). Não na câmara de gás e na fornalha. Mas é no olho que se vê refletida a salvação ante a subida aos céus.

Não é "esperança", e sim verdade no futuro, quando o presente está destroçado. Um brilho dourado é visto, "teus cabelos de ouro Margarete". Há ruas de ouro no Céu. Mas o vapor que torna o leite negro também torna teu cabelo cinza Sulamita, como o guerreiro povo semita, morto e esquecido. Tal visão, que já nas últimas estrofes se confunde e se interpõe com mastins e balas de chumbo (a percursão da música da morte) só pode ser gozada se o coração não estiver pulsando na terra. Lemos também:

"Quem arranca do peito seu coração para a noite e o atira alto:

não erra o alvo,
apedreja a pedra,
a ele bate o sangue do relógio,
para ele sua hora soa o tempo na mão:
ele pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim." ('Wer sein Herz')

O pulsar da vida está sobre todas as catástrofes. "A vida a tudo torna feio" (Strindberg), mas sofrer já estava previsto e revelado:

"O quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caíra sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo.
E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como fumaça de uma grande fornalha; e com a fumaça do poço escureceram-se o sol e o ar.
Da fumaça saíram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra.
Foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm na fronte o selo de Deus." - Apocalipse 9:1-4


Com o coração mais forte que o infortúnio, não se encontra salvação, mas a luz da verdade. Com "o sangue do relógio" que pulsa e envelhece, controla-se "o tempo na mão".

"À noite, quando o pêndulo do amor oscila
entre Sempre e Nunca,
tua palavra junta-se às luas do coração" ('Nachts')

Voltamos a ouvir "eu" e "tu" individuais, então. O tempo para corrigir, para voltar atrás não há, mas aproveita-se a escuridão do Abismo para só se ver o futuro. Guiado pela luz da sabedoria (capaz de iluminar até mesmo um trecho do Inferno) e por sua musa mais nomeada que o próprio Deus, Dante descobriu seu futuro. No "Negro, como as feridas da memória" ('Schwarz'), com a esperança mais doente, tento encontrar a luz. "Salvação".

"Irrompeu-se algum raio
até mim?
Ou foi a barra
rompida sobre nós
que luz assim?" ('Luzir')

Ainda que um raio de luz cintile no escuro, uma última palavra ("tu sabes - um cadáver"), inquisitiva, resta solitária. A caliça e o pó não são capazes de ecoar lágrimas. Mas a resposta pode ser brilhante sobre as cinzas.

Teus cabelos de ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Fuga da Morte

ouvindo: Diary of Dreams - Rumors about Angels
frase do dia: "Não existem anjos em trincheiras" - Bukowski


Fuga da Morte

Leite negro d'aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
nós bebemos e bebemos
nós cavamos uma cova nos ares onde não se deita apertado
Um homem mora na casa ele brinca com as serpentes ele escreve
ele escreve quando escurece para a Alemanha teus cabelos de ouro Margarete
ele escreve e aparece em frente à casa e cintilam as estrelas ele assovia para seus mastins
ele assovia mandando seus judeus para fora manda cavar uma cova na terra
ele nos ordena tocar para a dança

Leite negro d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tarde
nós bebemos e bebemos
Um homem mora na casa ele brinca com as serpentes ele escreve
ele escreve quando escurece para a Alemanha teus cabelos de ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita nós cavamos uma cova nos ares onde não se deita apertado
Ele grita cavem mais até o fundo vocês aí vocês ali cantem e toquem
ele pega o ferro na cintura ele o balança seus olhos são azuis
cavem mais fundo as pás vocês aí vocês ali toquem mais para a dança

Leite negro d'aurora nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tarde
nós bebemos e bebemos
um homem mora na casa teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes

Ele grita toquem a morte mais doce a morte é um mestre d'Alemanha¹
ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam como fumaça aos ares
então terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita apertado
Leite negro d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é um mestre d'Alemanha
nos te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre da Alemanha seu olho é azul
e te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio²
um homem mora na casa teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós ele nos dá uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é um mestre d'Alemanha

teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita


(Paul Celan, em tradução minha)
...

1.
Apesar de não gostar de mudar a ordem das palavras do original, preferi "toquem a morte mais doce" do que "toquem mais doce a morte" pois confundiria o sentido em português. O que se toca é a própria morte, como se nota no acusativo do original: ,,Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland".

2.
Também não quis alterar as palavras, que são musicais, mas preferi usar "e" no lugar de "ele" pois 'morte' é uma palavra masculina em alemão, e "ele" se refere à morte do verso de cima, o que poderia causar confusão. No original: ,,der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau / er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau".