quinta-feira, dezembro 13, 2007

Faroeste Caboclo? Prefira o Bang-Bang americano.

"O que explica o sucesso de muitas obras é a relação ali encontrada entre a mediocridade das idéias do autor e a mediocridade das idéias do público."- Chamfort


Há uma decisiva e já famosa análise da música Eduardo e Mônica, da Legião Urbana, a circular a internet há uns bons equinócios. Costuma ofender muitos perobos, feministas, pós-punks, menininhas de franjinha e demais criaturas sobejantemente feias da sociedade, haja visto seu autor não cansar sua facúndia exprobando a pau e pedra toda a falta de tato desses indivíduos, porfiados que estão em considerar Renato Russo um gênio alteroso e alumiado, crítico da envilecida classe mídia, preconceituosa e intolerante - e sem atentar para o fato de que seus pueris faniquitos estéticos são os mais ditadores e caga-regras produzidos pela própria Kulturindustrie que criticam...


Mas eis que tergiverso, descumprindo meu pacto de objetividade. O fato consumado é que, por mais caricatural, sexista, boba e frugal que seja a letra de "Eduardo e Mônica", ela só faz por referir aos enfadonhos clichês do pensamento de seu autor. Por outro lado, "Faroeste Caboclo", a mais comprida música que as insuportáveis rádios brasileiras têm coragem de tocar (e a mais comprida que a maioria de seus ouvintes canta by heart), além dos já referidos lugares-comuns, atenta-nos insofismavelmente, através de uma penca de paradoxos, para como Renato Russo era um péssimo escritor. Como todos os pseudo-músicos/poetas que tocam MPB em rádios rock e rock em rádios MPB.

A história é bem conhecida de todos. Um gaudério adolescente em falta de uma bela surra percebe ter envelhecido e vai para Brasília (terra mater Urbanae Legiis). Enceta uma vida mais apascentada na capital federal, apaixona-se por uma anódina fêmea desprovida de qualquer seqüela de personalidade e inteligência, terça armas com um rival traiçoeiro e morre como herói, sem fazer absolutamente nada de invejável ou admirável na vida.


Contudo, embarafustemo-nos mais nos ubérrimos e decorados versos da canção (já de per se nada estésicos, a ponto de "rimar" com lugar, trabalhar com Taguatinga ou, horribilis super omnes, morrer com TV).

Logo de início, há um revelador solecismo indicador da, digamos, postura dúbia que Russo terá com João durante toda a música, quando o último é enviado ao reformatório, "onde aumentou seu ódio diante de tanto terror". Em meio a uma inversão da prosódia e da acentuação que faria Camões se suicidar numa caixa d'água, perguntamos se queremos render loas a um herói com ódio gratuito por tudo que não seja ele mesmo e seu irrefreável instinto para a derrocada. Também se o "terror" impingido é obra dos reformadores ou reformados - mas, para uma criança desordeira, que prescindiu de uma bela cintada nos entrefolhos nus, supor que tamanho horror não seja conseqüência direta de seu próprio desvario é um achincalhe à toda a sabedoria.

Já crescido, Santo Cristo pisa em Salvador e, em mais um momento doidivanas, só conhece a rodoviária. Toma um café com um desconhecido boiadeiro prestes a perder uma viagem para Brasília. João "lhe salva" (?!) tomando-lhe a passagem, enquanto o outro macho ocidental fica sem visitar a filha, ainda agradecido pelo embuste que ele mesmo logrou. João nem pagou pela passagem? Então, como assim "o salvou"?! Aliás, o homem não precisava ser salvo pois ia perder o ônibus? A grande mágica do super-herói João, então, foi sair do bar e conseguir entrar no veículo a tempo?! E o homem ainda ficou feliz, perdendo passagem, dinheiro e deixando a filha na mão?! Se um sujeito desses é assaltado, também agradece de joelhos à Divina Providência pela sorte do dia?!

Em Brasília, após trabalhar como carpinteiro, João prefere a vida de traficante junto a um primo longínquo, Pablo. Começa a roubar "sob uma má influência dos boyzinho (sic) da cidade". Aparentemente, quem rouba em Brasília são os playboys, não os mano... É mesmo um herói. Em pouco tempo, no entanto, João enamora-se por Maria e recomeça uma vida menos desregrada, sem que a letra nos mostre que a moça ofereceu alguma resistência a essa (e a outra) investida.

Mas logo João recebe uma bizarríssima visita de uma espécie de caça-talentos de um grupo terrorista. A proposta inclui deixar bombas em bancas de jornal e colégios infantis, e também "proteger um general". Além de nos perguntarmos onde diabos essa nova personagem secundária descobriu a verve para a violência de Santo Cristo, esta espécie de Fernandinho Beira-Mar, em pleno momento de vida escorreita e antes do advento do Google, também é de se questionar que caralhos de banda podre do Exército nesse país pode auferir algum lucro desmilinguindo jornaleiros e pivetes, além de quem, com um contigente de milicos frondoso como o nosso (e que nunca têm trabalho), precisa escalar um indisciplinado zé-arruela de fora das fileiras fardadas para a labuta suja.

(a visão de Russo far-se-á clara em breve, com mais uma de suas típicas paneleirices contraculturais e "cabeça", atacando a mesma mídia infensa que vendia seus álbuns como pãozinho quente.)

Mas João foi sensível ao encontro com a personagem que some misteriosamente da trama. Russo diz:

"Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar"


Estava certo?! No quê? Se seu futuro tornou-se incerto, foi justamente por "estar certo". Sem falar que essa é a substituição mais rápida de que se tem notícia, não dando tempo nem para que o pileque transmute-se em ressaca... nem o McDonald's tem um sistema de demissão e contrato tão eficiente!

Santo Cristo volta-se então para Pablo, seu antigo primo cúmplice:

"Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar

Pablo trazia o contrabando da Bolívia
e Santo Cristo revendia em Planaltina"

Trata-se, no mínimo, da pior "rima" da história da língua portuguesa, última flor do Lácio, bela e inculta!!! "Armar" rima tão bem com "Planaltina" quanto rima com "Bolívia", perdida na mesma frase। É para obrigar seu autor a engolir uma caixa de cotonete usado, um a um!! Será que alguém é capaz de pronunciar Planaltina de modo a que rime com maracujá?!

Porém, notemos que, além de se escalacrar em sua tentativa de bon vivant, João, não mais que de repente, não volta mais para casa após ficar trêbado!! Deixa todas as suas cuecas para Maria Lúcia lavar (Russo, apesar de ser a bicha mais respeitada do país junto a Caetano Veloso, não deixa de ser barbudo e machista ao construir a insonsa e ultra-submissa personagem Maria) e vai dormir, grogue e a feder, por meses a fio, sabe lá Russo onde.

Como Russo não lera A Origem da Tragédia e todas as suas tentativas de dar suspense até aqui deram com os burros n'água, insurge-nos, sem mais explicação, o brucutu Jeremias, com a única função ontológica de rivalizar com João em tudo ("Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo / E decidiu que com João ele ia acabar"). Não se sabe com que raios de "planos" um traficante fodástico poderia querer acabar (afinal, o grande "plano" de Santo Cristo é ser um muambeiro de merda pra conseguir pagar algumas contas enquanto não toma vergonha na cara de voltar para casa), mas Russo precisava de um vilão a todo custo, que irá comer sua namorada Maria Lúcia (e chega a se casar!!), tardia situação em que o alesmaiado João resolve voltar para casa e dar algo próximo de uma satisfação por sua histeria.

Finalmente, eis que é chegada a hora de um duelo abusivamente sem cabimento em meio a uma favela - e que até a TV anuncia! (alguém mais supos outro canal?) Apesar dos xingamentos desbaratados (João é chamado de "porco traidor", como se tivesse votado nos tucanos, e Maria Lúcia é chamada de "falsa"... por Jeremias) e de poucos tiros, a saraivada de incongruências que aí se sucedem consegue fazer todo o resto da canção parecer tão bem concatenado quanto os Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem.


Em mais um abuso de clichês, Russo tenta demonstrar o caráter insidioso de Jeremias fazendo-o atirar pelas costas de João. Aqui se levanta o mais estrepitoso revide a essa música: Que porra de arma João levara para o embate?! Nenhuma!! Isto posto, até um golpe de canivete pela frente e bem avisado é de uma abjeção atroz!

Imaginamos João aproximando-se, milímetro a milímetro, enquanto Jeremias aponta a arma e faz graçolas: "Isso, João, vem cá, vamos ser amigos... isso, só mais um pouquinho... *BANG!* Eheee!!" - será mesmo que Russo precisava de um lugar-comum tão estúpido quanto um tiro nas costas, se esqueceu de armar o desafiado ao menos com uma pedra ou uma ripa com pregos?!


Para piorar, apesar do trânsfuga Jeremias ser capaz de tal ato, também é capaz de observar pacificamente o resplandecente ressurgimento de Maria Lúcia, aguarda Santo Cristo carregar e empunhar a engenhosa carabina Winchester .22 (mesmo ferido mortalmente!) e ainda desferir cinco tiros de espingarda (que se dobra no meio a cada disparo), tudo sem esboçar reação. Muito condizente com quem atira pelas costas... ou deveríamos dizer, condizente com um autor que leva alguém para um duelo sem arma?! (note-se, também, que quem possuía a espingarda era Pablo, e sabe-se lá como ela foi parar nas mãos de Maria Lúcia, a essa altura casada com Jeremias)

Também estranhamos Maria Lúcia "se arrepender" (de ter dado pra quem?!) e morrer junto com (sic) João. Um dos tiros, acaso, teria ricocheteado na sirigaita? Ou João resolveu mesmo descontar o ódio acumulado no reformatório? Quem matou Maria Lúcia? Se foi João, por que diabos ele é "seu protetor"?! Se não foi, caralhos cá que me fodam, ele também não foi seu protetor!!


Para explicar a paranóia de generais terroristas e ameaças invisíveis ao pobre povo (a patuléia massificada que tanto idolatra a Legião Urbana), Russo ainda arranja espaço para cutilar com escarninho quem estava trabalhando e não pôde interromper sua faina para acompanhar tal odisséia: "E a alta burguesia da cidade não acreditou na história que eles viram na TV". Supõe ele que quem assiste a Globo é só a "alta burguesia", e não a dona Serafina? Mais uma rima infeliz e ele teria espezinhado a revista Veja...

Faroeste Caboclo tem tantos versos se contradizendo, ou caindo no mais descucado desatino, que terminamos, junto com a música, a pinçar sua conclusão: "E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter / Ele queria era falar pro presidente, / Pra ajudar toda essa gente / Que só faz sofrer" - mas, afinal, que gente?! E gente que só faz sofrer não precisa de ajuda - precisa de porrada!!

quarta-feira, setembro 26, 2007

A Dor de Parto das Palavras

ouvindo: Theatre of Tragedy - Bring forth ye Shadow
frase do dia: "Ele [Fausto] apreendeu o amor, não porque acredite nele, mas porque no amor há um elemento do presente no qual se encontra o repouso de um instante e intenções que distraem e desviam a atenção da inanidade da dúvida." - Søren Kierkegaard


A filosofia (philosophía) é grega por excelência. O pensamento filosófico nasce com a pergunta pela essência do ser - daí a mescla de Husserl entre filosofia e fenomenologia. Os primeiros filósofos (ou, pela concepção de Heidegger, os últimos grandes pensadores) perguntavam: qual o princípio da Natureza?

Quando perguntamos: o que é isso que temos ali?, podemos obter diversas respostas objetivas. O que temos ali é uma árvore. A maneira grega de assim perguntar é ti estín?. Quando agora perguntamos "mas o que é isso, a árvore?", estamos então mais próximos da forma interrogativa helênica.

O pensador grego deu nomes aos fenômenos conforme sua maneira de pensar. Os primeiros pensadores (pré-socráticos) foram chamados de "filósofos da physis" por Aristóteles, por buscarem o princípio da Natureza. Mas aqui começa a se derramar sangue estranho nas traduções para o latim.

A palavra physis, geralmente traduzida por "natureza", tem um sentido especial na filosofia - como todas as palavras que esta última toma para si. Significa nascimento, brotamento. Como também a palavra natureza. "Ser natural de..." indica um local de nascimento. "É de minha natureza ser assim" demonstra um comportamento inato, não-adquirido: nasceu-se assim.

Já o arkhé, muitas vezes traduzido por "começo", gera confusão na tradução. É o que vem antes - e, em nosso modo de pensar embebido pela noção do tempo, seria o primitivo, o mais antigo - está mesmo na raiz de palavras como "arcaico" ou "arqueologia". Mas o arkhé também é o que manda, o que governa - está presente também na etimologia de "monarquia", "anarquia".

Uma tradução latina mais adequada seria "princípio". É o que vem na frente, mas também uma diretriz - uma ordem de governo. O príncipe, nas antigas guerras, era quem ia à frente do exército, comandando o batalhão. Saímos, portanto, do eixo do tempo: o arkhé não começou no passado e agora já não começa mais, sem presença. Para o grego, o princípio é princípio por ter força - força para mandar.

O começo, ao contrário, demonstra o paradoxo de nossa usual e científica concepção temporal: sempre é possível perguntar o que vem antes do começo de algo - então, o começo é a continuação do que já havia antes. Antes do princípio, entretanto, não havia nada. É um princípio que continua sendo princípio, mas o que começou já não começa mais.

Essa idéia da temporalidade como pulsos, e não uma linha contínua, encontra respaldo no tempo cíclico taoísta, no tempo para Deus de Santo Agostinho, nas pulsões de Nietzsche, na diferença entre temporalidade e eternidade de Kierkegaard e Karl Barth (sendo o instante, nestes e também para Krishnamurti, o momento em que a eternidade se manifesta na temporalidade), na obrigatória relação entre tempo e espaço da física quântica moderna pós-Planck, assim como no ensino das artes marciais e na fenomenologia de Heidegger.


The late wisdom of failure

O fracasso é inevitável. Ao filósofo, após fracassar ao dar nomes cotidianos para conceitos da sophía, um modo próprio e original de saber, só resta fracassar com louvor. Note-se que a própria philosophía não acolhe e toma para si o saber do mundo. Isso seria o conhecimento como adequação da realidade - uma vontade de verdade (Trieb zur Wahrheit) falsa, já apontada por Nietzsche nos "Preconceitos dos Filósofos", em seu Para Além do Bem e do Mal (Jenseits von Gut und Böse).

Fracassamos ao buscar o começo. Fracassamos ao nomear o inominável. O fracasso surge graças a pensar através da dimensão do tempo.

Vejamos esse poema de Paul Celan:

Negro
como as feridas da memória,
escavam os olhos até ti
no reino claramente sugado
por dentes do coração
onde permanece nosso leito.
através desse poço tu deves vir -
tu vens
No sentido
da semente
o mar te destroça, no íntimo, para sempre
O dar-nomes tem um fim,
sobre ti eu lanço meu destino.

...

Começamos nas trevas - onde não podemos agir, apenas pensar - e com medo. A escuridão é como as feridas da memória - o tempo novamente gerou dor ("O infinito distribui fins sem cessar" - F. M.). Também mostra ser um escuro pessoal: "Se teu olho estiver negro, todo o o teu corpo estará escuro. Se a luz que existe em ti são trevas, como é grande a escuridão!" (Mateus 6:23)

Os olhos, deslustrados com as nódoas temporais, escavam à procura de um "tu". Quando se escava a terra, a faina é dura e suja, e nos direcionamos para baixo sem nenhum guia. Contudo, este reino também foi sugado (interiorizado) e é claro. A filosofia, morada da ratio, capaz de iluminar até um trecho do Inferno de Dante, falha em aclarecer os princípios - mas o coração é príncipe e claro, possuindo a coroa desse reino (Kronland).

O leito lá permanece - nascer, morrer e reproduzir-se são pessoais, mas o reino do coração, do tempo do eu (kairos, ou Ichzeit), em contraposição ao tempo do mundo (kronos, ou Weltzeit), fica inalterado para fazer surgir (arkhé) e acolher o que fenece.

A seguir, através do poço cavado (Depois da dor), o "tu" aparece - no sentido da semente - o princípio que governa, e que antes dele (A semente) não há nada. O princípio dá o sentido (Sinn, em oposição ao Bedeutung, ou "referência", para Frege) - à Physis e ao existir.

O mar, eterna imagem poética do tempo, com suas ondas indo e vindo, em eterno retorno, destroça o tu, eternamente. O tempo destrói tudo e acumula fracassos - e no íntimo: o mar também costuma representar o inconsciente a trazer pesadelos.

A repetição do tempo é que permite a organização mental, contudo: "E repetindo-se o riso após a lágrima, o nascer reluzente após a escura dor e a borboleta após a lagarta, o homem deixou de se surpreender com a sabedoria após a loucura." (F. M.)

A dimensão temporal física erra até mesmo ao supor a realidade - palavra latina par excellence. Real é o que é feito de res - uma coisa. A filosofia começa com uma pergunta sobre a physis, que nem envolve uma coisa ou substância - e só podemos falar de "realidade" assim, entre aspas. É o mito da substância.

A nomeação que a ratio dá possui um fim: tanto um intuito quanto um término.
Nossa razão não abarca o mundo. Mas a temporalidade traz a morte.

Mesmo que o destino final, inevitavelmente, seja o leito de morte, ainda assim quer-se um sentido à existência - um destino a se caminhar. O fracasso virá certamente: mas pouco haverá a se chocar quando tudo estiver escuro.

A loucura do devir - de contar infinitos pontos de espaço e tempo - é supor um começo para o que é um princípio - curvar a natureza em um sistema de conseqüências. Essa forma comum, como pensamos o tempo, é na verdade paradoxal, especiosa.

Vemos este outro poema de Celan, um de seus raros rimados:

ich kenne dich, du bist die tief Gebeugte
ich, der durchbohrte, bin dir untertan
Wo flammt ein Wort, das für uns beide zeugte?
Du - ganz, ganz wirklich. Ich - ganz wahn.

eu te conheço, és a profundamente curvada
eu, o trespassado, sou a ti subordinado
Onde queima uma palavra, que para nós dois procriou?
Tu - tudo, tudo real. Eu - tudo louco.

...

A "realidade" do tempo é uma loucura. Dar um "fim" como uma palavra marcada ao atemporal, que está no reino do coração, é fugir de um princípio cuja chama brilha sem fim. O "real" é tocável - mas o que há antes do seu começo e após seu fim? O real é a demência.

O tempo do coração escurece - mas se interiorizado e com destino certo, possui a coroa de um reino claro.

Wahr spricht, wer Schatten spricht
.
Fala a verdade quem fala sombras.

É num tempo de trevas que o olho começa a enxergar.

sábado, agosto 11, 2007

Romanze zur Nacht

ouvindo: Dead Can Dance - Persephone: The Gathering of Flowers
frase do dia: "Ele supunha que era à solidão que tentava escapar, e não a si mesmo." - William Faulkner


Romance na Noite

O solitário sob a tenda das estrelas
Caminha através da meia-noite.
O rapaz acorda de sonhos confusos,
Sua face remove-se cinza na lua.

A tola chora com cabelo sem ondas
Perscrutando no peitoril da janela.
Na lagoa passada após doce jornada
Amantes perambulam da forma mais bela.

O assassino sorri descorado no vinho,
Os doentes pegam horror da morte.
A enfermeira reza escarificada e nua
Ante a agonia do Salvador na cruz.

A mãe silenciosamente canta no sono.
Pacificamente a criança olha a noite
Com olhos que são tão verdadeiros.
No lupanar risadas soam.

À luz de velas desce ao buraco da célula
O morto pinta com a mão branca
Um sorridente silêncio na parede.
Quem dorme ainda sussurra.


(Georg Trakl, tradução de ,,Romanze zur Nacht".)

sexta-feira, agosto 10, 2007

Sociolingüística dos palavrões, porra.

ouvindo: South Park Soundtrack - Uncle Fucker
frase do dia: "I would never let a woman kick my ass. If she tried anything, I'd be all like, 'Ahy! You get your bitch-ass back in the kitchen, and make me some pie!'" - Eric Cartman


O orkut resolveu praticar a sabotagem mais putanheira possível: passou a deixar de exibir postagens de perfis orkuticidados. É assim com mães irresponsáveis e com Frankenstein: primeiro criam o monstrinho, depois o abandonam à própria sorte.

Parece-me notar, entretanto, que ninguém atentou a tal tonitruante fenômeno. A única comunidade que conheço que sofreu desgraçadamente com os reveses de tal grosseria foi minha gloriosa Marx de cu é Hegel. Até escrevi meu manifesto de total repúdio a essa paneleirice, embora já com o sotaque da minha consuetudinária falta de esperança.

Por sorte, minha maior obra-prima foi salva de ir parar no Reino do Esquecimento. Como mais um apelo para que o orkut revogue essa decisão e volte a exibir postagens que merecem entrar para os anais da História, deixo meu mais famoso tópico aqui, resgatado por milagre (ainda estou em prantos por todos os outros), apenas para aquecer a saudade.

Boas memórias!


Sociolingüística dos palavrões, porra.

Muito se avançou na Lingüística na segunda metade do séc. XX com grandes revoluções no entendimento sobre a linguagem, sobretudo com a distinção entre substância e forma da expressão e do conteúdo por Hjelmslev, a gramática gerativa de Noam Chomsky e as análises semióticas sobre a cultura do dia-a-dia por Barthes, porra.

Mas nunca qualquer um desses filhas da puta resolveu estudar os importantíssimos usos e desusos dos tão usados palavrões. Essa é minha contribuição Acadêmica para, modestamente, tentar dar um revertério nessa injusta situação, porra.

O palavrão já não merece esse título, por serem palavras curtas - em inglês, por sinal, são chamados, ahn, digamos, "carinhosamente", por four letter words: cock, shit, arse, dick, cunt, fuck e por aí vai, porra.

Esta análise tem por objetivo responder a pergunta-motor desse tipo de estudo:

O palavrão tem significado, porra?

Lembrando do que Wittgenstein fala sobre a linguagem, o uso de uma palavra é já uma criação - não apenas uma "cópia" de coisas do mundo. Enquanto, em português brasileiro, dizemos "corvo", delimitando um conjunto de aves negras que costumam martelar, com voz do báratro, longínquos "Never more!" para viúvos de Lenores, em inglês, possivelmente pelo maior contato com tal tipo de ave, há uma distinção entre corvos pequenos (raven) e grandes (crow), porra. Não se trata, portanto, de criar uma palavra para um objeto do mundo, e sim para delimitar um conceito dentre fenômenos diversos, porra.

O palavrão, nitidamente, tem como substância da expressão (a Idea) a Transcendência, em todos os seus aspectos. Quando se fala de algo que é tão distante do ponto onde os falantes se encontram que suas mentes são incapazes de medir o trajeto, soltam logo um belo "Fica lá na casa do caralho", "É no cu da mãe Joana", "Foi lá na puta que pariu", et coetera. Da mesma maneira o crente faz quando quer expressar a grande carga de emoção que jaz em seu peito, e só consegue exclamar "Valha-me Deus!" - o que corresponde ao laico "Caralhos que me fodam!".

A ligação do palavrão com o transcendente religioso, o inominável, o Um que é Todos, o Atzsluth cabalístico, pode ser comprovada quando mesmo o crente, ao se referir ao espaço incognoscível do ponto de vista da manifestação de seu ser presente, também vocifera um grande "Fica pra lá do cu do Judas", já também lembrando que sua imaterialidade ultrapassa mesmo as barreiras da ética, ao se referir a quem, diz-se, deu um ósculo em troca de 30 dinheiros - embora as fontes não confirmem se "ósculo" é uma gíria pra vocês-sabem-o-quê na época, porra.

O palavrão possui uma transvaloração intríseca, e daí o seu atributo de tabu, que é o pior palavrão já inventando nessa porra. Na hora do sexo, do tcheca-tcheca-labutcheca, do vuco-vuco, do pocotó-pocotó, da foda selvagem, mesmo as mais puras almas de Deus não vão dizer "Introduza o seu pênis ereto no meu canal vaginal agora!" ou "apalpe e succione minhas glândulas mamárias e demais zonas erógenas, campeão!" - a predileção natural da espécie é descer o nível imediatamente, visto que mais baixo do que uma tentativa propositalmente mal-sucedida de perpetuação de espécie, só mesmo com anões octagenários alisando uma vulva felpuda besuntada em óleo de bateria de carro no lustre, porra.


Como o sexo tem o valor de rito de passagem na sociedade, transformando meninos e meninas em homens e mulheres - e também em boiolas, sapatões, putas e hermafroditas voluntários - o seu valor de "inefável", de segredo de Estado que todos sabem mas ninguém comenta e de "conversa para o sofá com seus pais com caras de putos" se torna manifesto, porra.

Como qualquer nome não-científico para as "partes erógenas" (existe palavra mais broxante no mundo, porra?!) é considerado "inadequado" para qualquer situação (e nem precisa ser a porra de um palavrão, afinal, usar "piu-piu" pra se referir a uma caralha em possível atividade cicladiana, ainda que balouçante no momento da fala, é coisa de arrombado), notamos o quanto o sexo, o tabu, a religião e a transcendência são as veias (!) motiz dos palavrões, porra!

Adendo especial, porra: algumas pessoas, sobretudo depois de notórios perobismos da geração Beatnick, gostam de dizer "fazer amor" para se referir às suas impuras trocas de fluídos na calada da noite. Amor é uma merda de um sentimento (que fode a vida, é vero), então como é que se "faz" um sentimento, porra?! (para aqueles que, obviamente, irão me responder: "Trepando!", eu já obtempero: se vocês se referem àquela coisinha branca, eu conheço outro nome, porra!)

O tabu, na sociedade introduzida (!!) na pós-modernidade que nunca acaba, se refere, basicamente, a todas as funções metabolísticas que você não praticaria na frente da sua avó. Logo, outro efeito de transcendência do palavrão é manifesto no banheiro - palco dos últimos resquícios de solidão meditativa e auto-conhecedora que o mundo contemporâneo nos legou, junto com o fone de ouvido e a morte, porra. Dessarte, os naturais hábitos de aliviar os intestinos são disfarçados na linguagem com o próximo, pois afirmar "Peraí, vou dar um cagão" pra namorada no MSN não parece ser um comportamento de muito futuro, porra.

Uma saída inteligente é usar a boa e velha metáfora e, assim, avisar o próximo das impingências que a Natureza lhe cobra por meio de construções mais rebuscadas como "Vou botar os moleque pra nadar", "Vou fazer download", "Preciso assinar a Lei Áurea", "Vou contar azulejo", "Vou meditar na casa da Pri", "Vou dar um alô pro Senhor Barros" ou, no caso de momentos de nítida pouca-vergonha, "Vou fazer clonagem", porra.

É claro que a transcendência representada pelo palavrão é uma transcendência mais axiológica do que epistemológica - nada foi, a despeito de Wittgenstein, inventado com o palavrão, além de novos meios de dizer aquilo que TODOS conhecem - exempli gratia, a palavra Arschloch, em alemão, refere-se a um orifício usado por todos cicladianamente, seja em qual direção vetorial for, situado no fim da medula espinhal. Diz a sabedoria popular, aliás, que quem o tem, tem medo, porra.


As relações daí decorrentes são abstrações em que os temas apresentados (sexo, religião, caganeira e outras coisas foda) se convertem em expressões idiomáticas que qualquer criança de 6 anos conhece mas não entende, porra. Ao chamar um bípede de "filha da puta", verbi gratia, o cidadão em questão sequer pensa na mãe do xingado, e, como é no meu caso, tampouco atenta para as variações suficientemente visíveis do gênero do indivíduo, visto que sempre uso no feminino, porra.

O palavrão é a vida, é a reunião com o Uno, com o Tao, é o Nirvana - o que, por fim, explica mesmo porque Nirvana é uma bela BOSTA!!!

domingo, agosto 05, 2007

A Mulher Fria

ouvindo: Theatre of Tragedy - ...a Distance there is...
frase do dia: "Não ter sido popular no Ensino Médio não é desculpa para publicar um livro." - Fran Lebowitz


Três coisas que odeio: comida caseira de restaurante, nazistas com o horrendo sotaque suábio e feministas recalcadas. Parece que, infelizmente, é um ponto em que eu e Freud concordamos com algo. Para se defender uma alta dose de sexismo, urge primeiramente pertencer a um gênero humano definível com razoável facilidade. Nada me parece mais grotesco do que queimar um sutiã, exibindo rebaixados seios tipo mochila (aqueles que dá pra jogar nas costas) enquanto se brada palavras de ordem femistas com voz de um rottweiller.São as novas vitimizadas pelo "branco ocidental", que vai de Shakespeare a Harold Bloom, sempre prontas a entrar numa guerra em que não se necessite de um uniforme - preferem banheiros limpinhos, onde possam trocar o absorvente e se barbear com conforto e segurança.

Contudo, há feministas de que gosto. Ironicamente, a maioria são homens. Um deles é Henry-Louis Mencken, um dos homens que mais entendeu as mulheres nesse planeta (junto com Kierkegaard, Bocage, Schopenhauer, Oscar Wilde). Já me contradizendo com o parágrafo anterior, devo dizer que os feministas que admiro parecem mais pertencer ao sexo masculino que ao feminino - pelo menos, parecem apreciar as mulheres e suas características feminis, e não agir com faniquitos histéricos que só poderiam ter aprendido com os piores tipos de macho.

Creio que nunca deixei um texto alheio nesse blog. Não obstante, H. L. Mencken merece ser mais lido nesse país. É um grande ídolo da Zelite pensante. Uma pena que seus motejos venenosos só nos cheguem por colunistas sociais podres de ricos, que são admirados sem nunca se conhecer a verdadeira fonte. Eis um maravilhoso texto seu, do livro Menckeneana: A Schimpflexikon, traduzido sem muitas chorumelas como O Livro dos Insultos.


A Mulher Fria

O talento feminino para esconder a emoção é provavelmente o maior responsável pela convicção de tantos americanos do sexo masculino de que as mulheres são vazias de paixão, e é por isto que eles contemplam suas manifestações do mesmo tipo no macho quase que com horror. Este talento feminino fica ainda mais à vista quando se sabe que poucos observadores, nas raras ocasiões em que pensam no assunto, são propícios a uma observação científica.

A verdade é que não há razão alguma para se acreditar que a mulher normal é frígida, ou que a minoria de mulheres inquestionavelmente o são tenham algum peso na balança. É a vaidade dos homens que dá tanto valor às mulheres do tipo virginal, o que faz com que este tipo tenda a crescer pela seleção sexual – mas, apesar disto, está longe de superar a mulher normal, tão realistamente descrita pelos teólogos e publicistas da Idade Média.

Seria apressado, no entanto, concluir que esta seleção longa e contínua não se faz sentir, mesmo no tipo normal. Seu principal efeito talvez tenha sido o de tornar mais fácil para a mulher conquistar e ocultas suas emoções do que para um homem. Mas este é um mero reforço de uma qualidade inata ou que, pelo menos, antecipou de muito a ascensão daquela curiosa preferência já mencionada.

Esta preferência obviamente deve a sua origem ao conceito da propriedade privada e é mais evidente nos países em que a maior concentração de propriedades está nas mãos dos homens – i. e., em que a casta dos proprietários conseguiu descer ao mais baixo estrato dos néscios e dos tapados.

O homem de baixo nível nunca tem total confiança em sua mulher, a menos que seja convencido de que ela é totalmente desprovida de suscetibilidade amorosa. Ele fica inquieto quando ela dá algum sinal de que ela responde à altura às suas maneiras elefantinas, e fica mais desconfiado ainda quando ela reage com chama ao que deveria ser um casto beijo conjugal. Se ele conseguisse se livrar de tais suspeitas, haveria menos tagarelice pública a respeito de mulheres assexuadas, menos livros seriam escritos por charlatões propondo esta ou aquela “cura”, e muito menos formalismo e monotonia no recesso do lar.

Tenho a impressão de que esta espécie de marido está prestando a si mesmo um péssimo favor, e que ele não gosta de ficar consciente disto. Tendo capturado uma mulher segundo as conveniências do seu gosto austero, ele logo descobre que ela o deprime – que sua vaidade foi quase tão penosamente atingida pela inércia emocional dela como o teria sido por um espírito mais provocante e hedonista.

Pois o que mais delicia um homem é ver uma mulher atravessar a barreira da solene submissão, em direito à potência afrodisíaca do seu grande amor – ou seja, o contraste agudo e envaidecedor entre a reserva que ela mentem na presença de outros homens e sua absoluta entrega a ele na intimidade. Isto faz cócegas em sua vaidade. Ao resto do mundo, ela parece remota e inabordável; para ele, ela é dócil, palpitante, efervescente, e até mesmo abandonada. Quanto maior o contraste entre os dois fronts da moça, maior a satisfação dele – até o ponto em que isto levanta as suspeitas do paspalhão.

No momento em que ela diminui um pouquinho este contraste em público – ao sorrir para um ator atraente, ao dizer uma palavra a mais a um maître que lhe deu atenção, ao segurar a mão do padre nas despedidas ou ao piscar de brincadeira para o marido de sua irmã --, imediatamente o matuto começa a procurar por bilhetes clandestinos,contrata detetives particulares ou passa a examinar atentamente os olhos, orelhas, narizes e o cabelo de seus filhos com dúvidas vergonhosas. Isto explica muitas catástrofes domésticas.

quarta-feira, julho 25, 2007

O Pêndulo Silente

ouvindo: Dead Can Dance - Crescent
frase do dia: "Amor: duas solidões protegendo-se uma à outra." - R. M. Rilke


O Pêndulo Silente

Perguntei ao silêncio como contar o tempo
sem nunca enlouquecer. Respondeu-me:
Os ponteiros que marcam destinos cruzados
cruzam-se sem nunca se tocar.

As horas correm fatais no escuro
Mas no relógio, tu não poderás enxergá-las.
No inverno, apenas corações tresloucados contam
quantos lírios os licornes colhem.

Perguntei ao tempo como sobreviver ao silêncio
sem nunca se perder. Respondeu-me:
As plêiades morreram para guiar
tanto os sábios quanto os primeiros a chegar.

O Inverno dá erudição à mente solitária
e fenece as flores que ela poderia contemplar.
Quando puderdes compreender teu tempo
saberás que teu tempo já se foi.


(Winter, 25.07.2007)

terça-feira, julho 24, 2007

A Verdade é Mágoa

ouvindo: Ataraxia - Tu Es La Force Du Silence
frase do dia: "Tenho algumas filosofias que podem ser reunidas em ‘frases-bomba’. Mas não se preocupe, as minhas frases são como as bombas de efeito moral: assustam, mas no final não fazem a menor diferença." - Autor desconhecido


Com a ajuda do velho Wolf-Jebão, um pouco da sabedoria que não é minha, mas muita gente acreditaria ser:


"Nada nos humilha mais do que a coragem alheia."
- Nelson Rodrigues

"Liberdade não é fazer o que se quer, mas querer o que se faz."
- Jean-Paul Sartre (eu continuo odiando Sartre mais a cada dia)

"Amigo é aquele que te esfaqueia pela frente."
- Oscar Wilde

"A sabedoria não se transmite. É preciso que a gente mesmo a descubra depois de uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar, e que ninguém nos pode evitar. Porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas."
- Proust

"Maravilhas nunca faltaram ao mundo, o que sempre falta é a capacidade de senti-las e de admirá-las."
- Mario Quintana

"Sempre pareceu óbvio que, se a moral supõe responsabilidade, tem de supor também a liberdade."
- Franklin Leopoldo e Silva

"Todo homem que se vende recebe mais do que vale."
- Barão de Itararé

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é uma mentira."
- Yevgeny Yevtushenko

"O sentido da vida consiste em que não tem nenhum sentido dizer que a vida não tem sentido."
- Niels Bohr

"O Homem é o único animal que se diferencia dos demais por agredir as suas fêmeas."
- Jack London

"Tudo nos falta quando nos faltamos."
- Goethe

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
- Fernando Sabino (obrigado pela correção, Nane!)

"Quem voltando a fazer o caminho velho aprende o novo, pode considerar-se um mestre."
- Confúcio

"Sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e alegramos-nos pouco pelo muito que temos."
- William Shakespeare

"O rugido do leão aterroriza os habitantes da floresta. / Para a leoa é declaração de amor."
- Hermógenes

"Há dois tipos de pessoas no mundo, as boas e as más. As boas dormem melhor, mas as más parecem curtir muito mais as horas acordadas."
- Woody Allen

"Não basta conquistar a sabedoria, é preciso usá-la."
- Cícero

"How can we dance when our earth is turning?
How do we sleep while our beds are burning?"
- Midnight Oil

"A única diferença entre um louco e eu é que não sou louco."
- Salvador Dali

"Que grande felicidade não ser eu!"
- Álvaro de Campos

"O medo existe para você demonstrar coragem."
- Pichação em uma sacada no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro

"Onde há civilização, há mentira."
- Flavio Morgenstern

"Nada neste mundo consome um homem mais depressa do que a paixão do ressentimento."
- Friedrich Nietzsche

"Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer."
- Molière

"Só temos o direito de ter esperança no futuro se formos capazes de ter confiança em nós mesmos, no presente."
- Augusto Boal, idealizador do Teatro do Oprimido

"Quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado."
- I Coríntios - parábola sobre o amor

"Nesta palavra 'Justiça' cabe quase inteira a noção da nossa felicidade na Terra. É a substância da civilização, a essência da sociedade, a síntese da política cristã. As nações medram ou desmedram, segundo a sabem ou não sabem guardar."
- Rui Barbosa

"Aquele que transforma em beleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dor, vive na perpétua alegria."
- José Pereira da Graça Aranha

"O reconhecimento é a memória do coração."
- Antístenes

"Os homens devem fazer somente o que, sendo útil a eles, o seja também aos demais."
- Cícero

"O homem não é infeliz enquanto age com justiça."
- Demócrito

"Aqueles que hoje afirmam que uma coisa é impossível de ser concretizada, tacitamente se colocam ao lado dos que vão perder."
- Victor Hugo

"Ser o que somos, e vir a ser o que somos capazes de ser; é o único objetivo da vida."
- Spinoza

terça-feira, julho 17, 2007

Lições de Auto-Ajuda pt. 2

ouvindo: Opeth - Beneath the Mire
frase do dia: "A morte, assim como a virtude, tem suas graduações." - John O'Barr, 'O Corvo'


Após o enorme sucesso (para padrões Algolagnia Ativa™, é claro) do primeiro tópico, com diversas citações adornando nicks de MSN e até mesmo perfis de orkut, eis que é chegada a hora de mais lições de auto-ajuda. Se você não leu a primeira parte, clique aqui. Se você também precisa de ajuda para clicar aí, melhor aceitar a melhor auto-ajuda para a vida: desista, boneca.

  • Domingos são os dias em que se mistura a falta do que fazer com a vontade de não fazer nada. Mas quando os dias querem ser chatos, eles nem se lembram de perguntar seus próprios nomes no calendário.
  • A bebida é um lubrificante social.
  • Ensinaremos aos que chegarem vivos, e os mortos que tenham coragem de assumir seus títulos.
  • O amor é uma pequena morte entre duas pequenas vidas e nada mais.
  • A consciência individual é apresentada ao animal através da dor física e, ao homem, através da mentira.
  • É difícil despertar esperança e alegria no coração alheio quando nós mesmos não as possuímos - o mesmo não ocorre com a tristeza.
  • Vida de atriz pornô deve ser muito foda.
  • Arte com desdém pela guerra merece guerra com desdém por essa arte.
  • Sangue real não torna um filho palerma nobre.
  • Nosso cérebro também é burocrático. (valeu, Nane!)
  • Nunca se nota que a liberdade de um implica na liberdade de escravizar o outro. Nossa liberdade começa onde ela é maior que a do próximo.
  • Há algo muito estranho acontecendo comigo. A hipótese mais otimista é um ataque de lombrigas.
  • A única razão pela qual acordamos é para ter material para nossos sonhos.
  • O Snoopy é o cachorro mais aerodinâmico existente.
  • Serotonina dá câncer. Pelo observável, no cérebro.
  • Sou defensor da moral e dos bons costumes. O único motivo aceitável para um divórcio é um casamento.
  • Todo dogma surge de um estigma.
  • O mundo é um veneno em doses homeopáticas.
  • Todos os homens nascem diferentes - Samuel Colt os tornou todos iguais.
  • Fanatismo é a esperança em desespero.
  • Só se descobre a compaixão quando há sofrimento. No amor, vingança e justiça não se diferenciam em nada.
  • Doom metal é música de velório tocada com over-drive.
  • Nossa grandeza, muitas vezes, não é nada senão frustrações de sonhos perdidos.
  • Poesia é a obra de homens vencidos, ganhando os espólios de uma derrota através da crueldade cinzenta do mundo.
  • Que nossa amizade seja como uma bunda: estejamos sempre do lado um do outro e que nenhuma merda nos separe.
  • Ingenuidade não substitui a sinceridade. A verdade é o único desprazer que a humanidade, vez por outra, insiste em buscar.
  • Ganhar a vida através do próprio sofrimento é otimismo demais para mim.
  • A Terra é levemente chata nos pólos, e extremamente chata nos trópicos.
  • Confissão é aquilo que um criminoso faz espontaneamente, depois de algumas horas de porrada.
  • Vencer não é tudo. Vencer é a única coisa.
  • A sina da humanidade é formar gênios, não massas. Um homem é apenas aquilo que um cavalo coloca em cima do corpo para ganhar uma corrida.
  • Suicídio é a coisa mais adulta que existe.
  • Ela é o ar que respiro. Quer dizer, fundamental - mas geralmente nem presto atenção.
  • Depois da peste negra, da bulbônica, da sífilis e do tifo, agora temos de sobreviver ao pior inimigo, escondido em cada espelho.
  • Sou um homem de muita fé. Em Carl Sagan.
  • Deus não nasce apenas da vontade de dominar - nasce também da preguiça de pensar e excesso de absurdos. Onde há imaginação demais para realidade de menos, haverá religião.
  • Não entendo essa estranha mania que minhas amigas têm de se apaixonar por mim.

domingo, julho 08, 2007

Lição de Vida

ouvindo: The Legend of Zelda Soundtrack - Water Temple
frase do dia: "Definição do nada: uma faca sem cabo que perdeu a lâmina." - Barão de Itararé


Esta carta foi enviada ao diretor de uma escola primária que havia oferecido um almoço em homenagem às pessoas idosas da comunidade. Durante o almoço, uma das senhoras convidadas, de idade avançada, ganhou um rádio, num sorteio realizado com os cupons que foram entregues na porta. Ela escreveu uma carta emocionada em agradecimento aos promotores do evento. Este relato é uma homenagem à toda a humanidade, e serve para refletirmos sobre as relações humanas:

"Caros alunos e membros da direção, Deus abençoe vocês pelo lindo rádio que ganhei durante o almoço em homenagem aos idosos!

Eu tenho 84 anos e moro em um lar de velhinhos carentes. Toda a minha família já faleceu, eu não tenho mais parentes. Por isso, foi muito reconfortante saber que existem pessoas que ainda levam em consideração o meu bem estar e paz de espírito.

Aqui no nosso Lar, divido o quarto com uma companheira mais idosa do que eu - ela tem 95 anos de idade - que não pode comparecer ao almoço, por estar muito deprimida. Durante todos estes anos em que convivemos ela teve um radinho como o meu, que lhe fazia companhia constante. Ela nunca permitiu que eu ouvisse o rádio dela, mesmo quando estava dormindo ou ausente.

Há algum tempo, no entanto, o rádio dela caiu do criado mudo e se espatifou no chão. Foi muito triste para ela, que chorou muito. Então eu ganhei este rádio e no dia seguinte ao almoço ela pediu-me para ouvi-lo, e eu disse:

- Nem fodendo, sua velha fdp!!!

Obrigada por me proporcionarem essa inesquecível oportunidade!"

terça-feira, julho 03, 2007

Havia Terra

ouvindo: Dead Can Dance - The Writing on my Father's Hand
frase do dia: "São as lágrimas da terra que mantêm o seu sorriso sempre em flor." - Rabindranãth Tagore


HAVIA TERRA neles, e
cavavam.

Eles cavavam e cavavam, assim
do dia para a noite. E não louvaram a Deus,
que, como ouviram, queria isso tudo,
que, como ouviram, sabia disso tudo.

Eles cavavam e não ouviram mais nada;
não se tornaram sábios, não inventaram uma canção,
não imaginaram nenhuma linguagem.
Eles cavavam.

E veio um silêncio, uma tormenta veio do germe,
vieram todos os mares.
Eu cavo, tu cavas, e cava também o verme.
e o cantor ali diz: que eles cavem.

Oh alguém, oh ninguém, oh tu:
Para onde foi, se não há lugar nenhum?
Oh, tu cavas e eu cavo, e eu me cavo até ti,
e no dedo o anel nos desperta assim.


(Paul Celan, em tradução minha.)

Teoria Geral dos Sentimentos

ouvindo: The Smiths - Girlfriend in a Coma
frase do dia: "De todas as formas de cautela, cautela no amor é talvez a mais fatal para a felicidade verdadeira" - Bertrand Russell


Teoria desenvolvida em conjunto com Marcelo Pietragalla.
Uma pessoa prática nos ajuda com os problemas da forma mais rápida possível. Um amigo nos faz crescer e nos tornar pessoas melhores para superá-los de frente, ainda que seja mais doloroso. Thanks, bro'.

Os sentimentos, em níveis fisiológicos, não são uniformes e sequer deveriam ser agrupados sobre o mesmo rótulo de "sentimentos", pois variam em formação e funcionamento. As conseqüências em nível prático de cada um se parecem, embora sua gênese seja diversa. Geralmente, caracterizam-se por estados de consciência em que todo o organismo trabalha em prol de um objeto, procurando reagir de forma coordenada e harmônica ao objeto engatilhador.

Os sentimentos mais primitivos do homem são a raiva, a tristeza, o medo e a alegria. Desses quatro, os três primeiros são considerados "negativos". Apesar disso, são sentimentos de sobrevivência, necessários ao homem. Apesar da visão de vida confortável contemporânea, a Natureza dá uma existência razoavelmente dolorosa ao homem. A vida é feita mais de trabalho e sofrimento do que prazer e desfastio. A existência individual é apresentada ao animal através da dor física e ao homem, da mentira. A alegria, o sentimento que resta, tem um propósito motivador, apenas. Ao experimentá-la uma vez, busca-se superar-se em outros desafios para ter novamente a sensação de recompensa.

Há-de se notar, entretanto, que esses sentimentos não são "criados" com um objetivo pela Natureza - são, sim, conseqüências diretas do aparelho humano criado com outras funções, mas que só conseguem estar em pleno funcionamento fazendo o ser humano sentir algo para ativação dessas funções. Temos, portanto, um organismo voltado para tarefas e sensações não-condizentes com a vida atual, que ainda busca carcaterísticas físicas e psíquicas no sexo oposto (e até no mesmo sexo) medindo sua capacidade para procriação, como o Homo erectus fazia.

Alguns sentimentos mais complexos, como a angústia, a preocupação, o rancor ou a mágoa são um misto de sentimentos mais primitivos, surgindo em conjunto por diversos fatores, nem sempre concatenados. Estar triste e enfrentar uma situação de projeção do indivíduo no futuro, quando as circunstâncias não garantem sua segurança, pode aumentar uma preocupação que já seria grande por si só.

O que chamamos "sentimentos", dessarte, são sempre reações do organismo a fatores externos. Não obstante, ao distender esses fenômenos no eixo temporal, a existência de um sentimento já é um fato, em si, para que outros sentimentos reajam a ele. Uma criança que está feliz com o seu brinquedo e tem seu acesso a ele negado não "transforma" sua alegria em rancor - o fato de ter um sentimento (a alegria) ligado a um objeto também é um fato, já tornado "externo", a qual o próprio organismo reage, e, graças à alegria primeira, a raiva sentida ganha uma carga de mágoa pela alegria negada.

Como fenômenos ocorrem nos limites do tempo e do espaço (e sentimentos estão mais ligados ao tempo que ao espaço), a própria temporalidade da existência gera novos sentimentos que o animal ignora, por não ter a abstração e a projeção temporal que o homem possui. A preocupação, nitidamente, joga o medo para possibilidades futuras que podem ser malogradas, e antecipa a tristeza que pode advir dessa falha. A mágoa também não existiria sem a temporalidade - dessa vez, o presente continua sem fatos novos para se reagir, mas o passado possui uma carga negra envolvida que impede a tranqüilidade feliz no presente.

Há muito de racional presente nos mecanismos que colocam os sentimentos em ação. Alguns são mais primários e diretos, como o medo e a raiva - imperativos de reação direta e, muitas vezes, imediata - enquanto outros possuem ligações intrínsecas mais complexas e abstrações que exigem boas doses de refleão - é impossível conceber um autista com muitas preocupações futuras, por exemplo. O sentimento com liames mais estreitos com essas reflexões é o amor.

O amor distende-se no tempo de tal forma que é inconcebível tratá-lo com a imediatez dos outros sentimentos: "Eu tenho raiva agora" é suficientemente lógico, mas "Eu amo agora" não faz sentido algum. O fato de um ente amar alguém é também um imperativo de reações que esse terá ao mundo exterior, mas não de reações diretas. Assim como a preocupação tem seu objeto no futuro e a mágoa no passado, o amor possui uma temporalidade própria - mas que não segue o tempo-do-mundo (Weltzeit, ou kronos para os gregos), e sim o tempo-do-eu (Ichzeit, ou kairos). Se João tem raiva de Maria, ele, agora, reagirá de uma maneira específica à ela. Se Fábio ama Bianca, contudo, não se pode dizer que ele deixa de amá-la por estar trabalhando ou dormindo, nesse momento. É um imperativo de ações mais genérico, com tempo próprio.

O amor que chamamos aqui inclui deixar a felicidade nas mãos do outro, por essa felicidade, no conhecido processo de sinergia, ser maior ao se completar com o outro ente do que apenas a felicidade dos dois, separados. A paixão, apesar de gerar algumas reações idênticas e mesmo poder levar ao amor, configura-se não pela posse do outro, mas pelo possuir - uma vontade de querer que o outro entre em seus conformes e satisfaça alguns de seus desejos.

Ainda há-de se notar que o amor continua sendo uma reação - assim, sem o combustível que o alimenta, ele esmorece como os outros, apesar de sua própria temporalidade. Contudo, esse imperativo, por não ser direto, influencia até mesmo quais serão as reações (e os sentimentos mais diretos que surgirão) em relação ao ente amado. Por ampliar a sensibilidade, os pequenos gestos que o amado faz ao amante garantem uma alegria muito maior do que os fatos em si, assim como suas falhas carregam uma decepção e uma tristeza que se prolonga por muito mais tempo.

O amor, contudo, é o único sentimento que faz os humanos se organizarem em relações apenas em seu nome. A relação amorosa constitui em "acordos" e organizações racionais entre as partes envolvidas, nem que seja apenas para aparar as arestas do que um não gosta e aceita com prazer no outro. Contudo, enquanto o sentimento é que impõe tais atos, ainda que esse eixo epistemológico vá contra o eixo axiológico dos entes envolvidos, o que mais conta de fato é a vontade de se entregar, se doar ao outro - mais do que o quanto ele consegue se lograr em atingir seus objetivos ou não.

No amor, para os efeitos mais longínquos, não há "errado".



(25.03.2007)

sexta-feira, junho 29, 2007

Entrevista com Bruno Tolentino

ouvindo: Diary of Dreams - Haus der Stille (pra provar que gosto de música como entretenimento)
frase do dia: "O sentimentalismo é uma superestrutura que encobre a brutalidade." - Carl G. Jung


Morreu, nessa semana, o poeta Bruno Tolentino. Não se considere ignorante: ninguém nunca ouviu falar dele mesmo. O homem que lecionava literatura em Oxford, Essex e Bristol diz só poder entrar numa faculdade nesse país disfarçado de cachorro.

O motivo? Bruno Tolentino toma a literatura como coisa séria. Arte das mais belas. Não é um pregador de panegíricos a figurões da MPB movidos a Rede Globo (e o que fizeram durante o exílio? música de protesto ao sistema, é claro!), não acha justo que uma Universidade como a USP trate Homero e Caetano Veloso como dois objetos de estudo praticamente idênticos, como se a axiologia fosse completamente definida por "subjetividades" do leitor - estranhamente, esse argumento para generalizar a tradição não parece ser usado pelos próprios academicistas quando são obras de seus "inimigos"...

Um estudante de Letras, na USP, conhece músicas de todo o alto escalão da MPB, conhece os "Brother Fields", Leminski, Chico Alvim e outros poetas que se confundem com pichações de banheiro como a palma da mão. Poucos, entretanto, conhecem Raymond Chandler, William Faulkner, H. L. Mencken, Louis-Ferdinand Céline, Merleau-Ponty ou Arthur Schnitzler. Alguns já leram o Paraíso Perdido, Os Lusíadas, Fedra ou o Quoelet - seus comentários, muito mais do que via de regra, são algo como: "Surpreendente! Lembro-me de no máximo umas três frases, mas é mesmo genial."

Em março de 2006, há pouco mais de 11 anos atrás, Tolentino deu uma entrevista à Veja. Para o estudante de Letras, para quem quer entender o panorama de poesia e para quem quer saber como ler a tradição e adqüirir cultura, ouçam o conselho desse leigo: é leitura obrigatória. Deixem a preguiça de lado. As palavras falam o que querem. E vejam lá: ele não cansa de elogiar alguns nomes que eu, transbordo em sinceridade, tenho ressalvas que não são poucas nem pequenas. Leiam, discordem - mas argumentem consigo próprios.

Um último adendo: ouvi diversas críticas a seu trabalho (como poeta não me atrai muito) e, sobretudo, sua forma de lidar com a intelectualidade. Qual o conteúdo de tais paneleirices? Alguns reclamam dele ser amigo do Olavo de Carvalho. Outros, de ter "falado mal" da cultura brasileira, representada por Caetano Veloso e sua trupe. Nenhum outro argumento foi encontrado. Responda rápido: quem são os reacionários e quem são os revolucionários?

Segue-a.

...

Por Geraldo Mayrink

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa.

Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Chair. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem — todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.

Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador João Guilherme Merchior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA — Por que tantas brigas ao mesmo tempo?
TOLENTINO — Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.

VEJA — Por que não?
TOLENTINO — Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.

VEJA — Qual o problema?
TOLENTINO — Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.

VEJA — Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?
TOLENTINO — Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.

VEJA — O que você tem contra a música popular?
TOLENTINO — Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

VEJA — O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.
TOLENTINO — Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio, achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.

VEJA — Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?
TOLENTINO — Não sabem inglês, nem alemão nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase "ele tem um pássaro", que é literal, mas que, em alemão, quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.

VEJA — Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?
TOLENTINO — Na República das Letras, ainda estamos à espera das diretas-já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades, prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se, matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, de que, em Lilliput, só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: "Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem".

Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras, e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: "Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e..." É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?

VEJA — Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?
TOLENTINO — O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e — como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? — o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.

VEJA — Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?

TOLENTINO — A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.

VEJA — Caramba... Não sobra nenhum crítico brasileiro?
TOLENTINO — Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim...

VEJA — O senhor também não sobra?
TOLENTINO — Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos críticos e poetômanos. Infelizmente, ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.

VEJA — Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?
TOLENTINO — Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.

VEJA — O senhor poderia dar exemplos disso?
TOLENTINO — Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. "Faz a melhor imitação de poesia que já li", dizia. Parecia piada, mas não era.

VEJA — O senhor acha que a imitação é ruim?
TOLENTINO — A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.

VEJA — Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?
TOLENTINO — Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.

VEJA — Então as universidades não servem para nada?
TOLENTINO — A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.

VEJA — O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?
TOLENTINO — O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil "ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas", como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos "grandes centros" produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o "rigor" (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.

VEJA — Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado...
TOLENTINO — É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.

VEJA — Tem a ver com o quê?
TOLENTINO — A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.

VEJA — O senhor não está exagerando, sendo duro demais?
TOLENTINO — Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.

VEJA — Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país...
TOLENTINO — O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.

VEJA — Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?
TOLENTINO — Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.


quinta-feira, junho 28, 2007

Destinos Cruzados

ouvindo: Dargaard - The Infinite
frase do dia: "(...) nos quebramos em dois / e nos esmigalhamos de novo em um: / o Senhor repartiu o pão, / o pão repartiu o Senhor." - Paul Celan, 'Orvalho' (tradução minha)


Destinos Cruzados

Os corações não mudaram nesses milênios
Inda tombam destinos em memórias negras
Dos que carregam a vida e vão perdê-la
Sem um beijo antes de se fazer silêncio.

Abraçamo-nos sempre correndo o risco
De perder o companheiro para a sorte -
O passado, um lar de todos os amigos
Lega ao futuro túmulos e seus nomes.

A cada hora, perde-se um pouco menos
Num caminho onde se ouvem muitos nãos
Como feridas sangrentas em nosso cenho

Assim se traçam os rumos dos que virão:
A mão no punhal corta o fio do tempo
Fio do punhal do tempo corta a mão.


(Inverno, 2006.)

segunda-feira, maio 21, 2007

Alguém tem medo de fantasma?

ouvindo: The Cure - Lullaby
frase do dia: "A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável." - H. L. Mencken


Recebi isso por e-mail. Meus comentários estarrecidos procedem o texto:


CARTA PSICOGRAFADA POR JOAO HÉLIO

Nasci na Gália no ano de 22 e desencarnei na Líbia no ano 20 da era cristã.Fui oficial da legião dos leões que estava na Líbia, Núbia.Como governador de Al Katrim, me comprazia atrelar na minha biga puxada pordois cavalos velozes, crianças, homens, mulheres, novos e velhos que erampuxados através da estrada seca e pedregrosa daquela região da África.Os corpos se despedaçavam e eu era exaltado pelos meus pares... Morri emcombate com tropas egípcias e me deparei em uma região de treva profunda,talvez uma caverna. Muitos gritos e rostos aterradores me esperavam.

Fui levado a um estado de total animalidade por mil e quinhentos anos,quando servos de Maria me resgataram. Sendo levado a outro plano, fui aospoucos tendo meu perispírito reajustado, minha mente normalizada e meuspensamentos corrigidos. E compreendi os horrores que cometi. Que tristezaDEUS. Por trezentos anos permaneci em preparo para reencarnação e pedia agraça de receber para desencarne o mesmo destino dado por mim a outros.No ano do Senhor de 2001, após busca incessante por quem me recebesse comofilho, um casal tiranizado por mim aceitou. Reencarnei. Agora em comoçãogeneralizada, como irmão Joãozinho, desencarnei e agradeço ao Pai ter meatendido dando destino, nem igual ao que dei às minhas vítimas. Estou empaz, estou na luz. Resgatei um pouco do meu passado, outros momentos virão.

Confio em Deus

Titus Aelius

(Mensagem psicografada de João Hélio no Centro Espírita Leon Dennis, que ele freqüentava com os pais - eu manti os erros todos)

...

Estou de volta, e com sangue nos olhos. Não urge ser gênio para saber que essas metafísicas baseadas em conversas com os mortos são prestidigitações baratas baseadas num princípio fácil: as pessoas acreditam facilmente naquilo que as torna mais importante do que são (os mitos gregos injetados nas partes íntimas, que encerram a moral da Psicanálise, são prova disso), na metafísica mais poética, não na mais verdadeira. A Bíblia será sempre imbatível (e mesmo os espíritas correm a ela, apesar de não saberem citar livros, capítulos e versículos) por sua literatura ser melhor.

Mas até quando é melhor seguir os ditames de uma canalha ignara pronta a dar "explicações" para qualquer fenômeno com tal falta de verossimilhança que só pode ocorrer na realidade?

Allan Kardec criou, de seu próprio punho, uma metafísica que, como todas as outras, adora passar mil conceitos para tudo, mas nunca explica o funcionamento. Não explica o porquê de termos um comportamento herdado geneticamente, nem como os tribunais do lado de lá da Mortalha cuidam de separar os crimes cometidos com carga social e os de estro próprio, nem em explicar como a alma controla o corpo, e porque ela sai desse quando esse é muito ferido. Mais: sequer se preocupa em responder esse tipo de pergunta.

Espíritas só são questionadores para se defenderem de ataques e para buscar explicações sobre fenômenos que parecem desafiar a Física. Sua curiosidade pára aí - não há o arranca-rabo divertido que existe entre Calvinistas e Luteranos, por exemplo. O Espiritismo só se preocupa com uma estética: a do sobrenatural e do medo ianto da morte. Qualquer filosofia além disso faz qualquer um tergiversar instantaneamente nos meandros espíritas.

Pergunto-me: o que diabos a Líbia tem a ver com o problema de segurança pública no Rio de Janeiro? Titus Aelius poderia, ao menos, saber de quem são as reencarnações dos psicopatas que tiraram a vida do pobre João Hélio?

Buscar alguma culpa no passado ajuda em resolver os problemas do presente? Uma "Consciência Cósmica", com moral própria (como se valores não surgissem de avaliações, e avalições diferentes produzissem valores diferentes), criaria todo o ciclo vital pseudo-eterno de sua prole ominosa baseando-se em um pagamento por pecados após o esquecimento desses?

Não é muito mais inteligente ter o Deus do Antigo Testamento cometendo genocídios, assassinatos de crianças e demais carnificinas enquanto as pessoas entedem por que estão sofrendo com a cólera do seu irritadiço e totalitário Criador?

É interessante trocar o Inferno de provações eternas do Cristianismo por sua versão não-eterna, mas piorada, do Espiritismo? Ambas as concepções do novo Hades são absurdas, mas trazer parte do Inferno para o mundo material soa uma falácia. Quer-se anular uma falha cometida numa vida com um novo horror cometido milhares de anos depois. Assim, a moral espírita, ao invés de diminuir esses crimes e tornar o mundo melhor, dá um julgamento com pena que exige um novo crime material. Ao invés da conseqüência ir diminuindo, vai se alastrando.

Supondo que essa metafísica fosse mesmo assim, não era mesmo de bom aivitre abandonar o Espiritismo e viver apenas com a Justiça material, punindo assassinos com eficiência? Não teríamos cada vez menos crimes? A moral espírita não vai contra a própria evolução de que se considera arauta universal? Onde Deus colocaria os próximos espíritos a serem punidos, se a sociedade parasse de cometer crimes?

Se é tão mais importante o espírito que a matéria, porque tudo precisa ser definido nos 68 anos (40, no suposto caso de Titus Aelius) de uma vida material? Cria-se todo um mundo espiritual só de respaldo ao que se passa aqui? Não acabaremos cometendo muito mais pecados nos milênios que passamos do lado de lá para nos preocuparmos com essas quinquilharias do lado de cá?

A fila para encarnações, com a população mundial multiplicando-se malthusianamente, deve estar a mil. Não é mais fácil abolir o planeta e todos irmos viver (epa!) lá do outro lado?

Como o Espiritismo julga aqueles que nascem numa sociedade violenta por natureza, como Serra Leoa?

Acho que passaria a confiar melhor nessas psicografias se, ao invés de um "Livro dos Espíritos" eivado em falácias e respostas tervigersantes, Kardec nos legasse um belo "Código Penal Interplanário".