quinta-feira, janeiro 19, 2006

Vendendo o peixe

ouvindo: Great Big Sea - Ferryland Sealer
frase do dia: "Por mais bem feito que seja o seu trabalho, o patrão sempre achará onde riscá-lo." - Desconhecido


ATENÇÃO: Todos os personagens reais dessa crônica são fictícios. Qualquer semelhança com qualquer pessoa real é uma cagada. Para evitar que os personagens fictícios dessa ficção me achem no orkut, meu nome estará temporariamente em grego.

Enfim, achei a causa honoris que me fez ressuscitar esse blog: um maldito emprego (isso também responde meu sumiço desde Outubro). E nada melhor que um primeiro dia para reanimar o mau humor de qualquer um. Em detalhes picados, adiante.

A Entrevista

Chego bem mais tarde do que esperava. Ainda no longo horário que me permitiram, mas achar aquele lugar foi um inferno. Acho que estou bem vestido. Acho que meu cabelo não resolveu se auto-destruir no meio do caminho. Enfim, chego lá, com meia hora de antecedência para o fim do horário. O espelho do elevador me dá o aviso na última hora: sim, meu cabelo está o lixo monstruoso em formato de floresta de arame farpado que se arma grotescamente, e já estou quase chegando. Agora, resta pouco a fazer, o que, a essa altura, significa nada. Meu aspecto assemelha-se morbidamente a uma mantícora despenteada.

Entro na sala. Atendentes operando telemarketing. Todas elas feias. Ninguém com cara de chefe a vista. Logo, identifico o perigo à minha frente: o chefe é muito novo, o que indica que a empresa é muderna e não vai gostar muito de eu parecer ter acabado de sair do primeiro dia da Terceira Guerra Mundial.

Minhas mãos estão tão suadas que não consigo segurar a caneta, de uma forma que nunca aconteceu. Acho estranho pois não estou nervoso - já abandonei qualquer esperança depois do espelho, espelho meu - assim como Caronte diz para qualquer navegador abandonar sua esperança ao cruzar os portais do Inferno. Noto o problema: está um tamanho calor, que suo de verdade, não por nervosismo. Minha testa está quase pingando. Apesar do banho de perfume triplicado, acho que o suor já é indisfarçável. A coisa vai mal.

Entro na sala, após entregar a ficha quase em branco - que eu posso fazer, sendo que ela quase inteiramente foi dedicada à minha passada experiência profissional inexistente? Após uma série de perguntas, percebo que esse chefe não reclamou da minha cara - o que estranho, visto que ele não parece com muita vontade de me mandar pro diabo. Enfim, tudo parece certo, no fim.

A Equipe Alfa

Dia seguinte. Alguns vendedores, junto comigo, sofrerão treinamento. Entristeço-me logo de cara ao perceber que iremos trabalhar em equipe - como se já não bastasse a aporrinhação, ainda vou dividir minhas difíceis e baixas comissões?!

A equipe consiste em um perdido numa noite suja de 19 anos que foi expulso do maternal, com a maior cara de office-boy, aliado a um japonês mais perdido que namorada de gêmeo (japonês). Eles parecem muito entusiasmados. É uma péssima notícia. Eles passam telefones de conhecidos que querem comprar o produto (pacotes de telefonia com redução de custos). Tudo pelo bem da "equipe". Ótimo. Clientes gratuitos. Ao menos, uma boa nova.

Após as rápidas explicações mais detalhadas de um dos pacotes, os chefes saem todos em reunião. O resto, é discussão do que vamos fazer, entre nós. Engraçado que sinto que estou quase dando uma aula para os dois goiabas. Na maior cara dura, um deles me pergunta se entendi bem o último modelo. Chego a me levantar, pegar a caneta e ficar explicando tudo na lousa. Logo, me pergunta do antepenúltimo, e assim vai, até o primeiro. O outro quase chega a tomar notas. Estão perdidos. De qualquer forma, foi uma ótima tática dele de perguntar sobre tudo sem admitir que não entendeu nada.

Sinto que a equipe é uma catástrofe.

A Equipe Beta

Mais um dia. Vamos pra campo. Treinamento na rua, porta-a-porta. Sinto-me um vendedor de Enciclopédias.

Estou com outros vendedores no Brás (bairro abarrotado de lojas de roupas populares). Há mais 3 vendedores junto com os dois baianinhos iniciais.

O primeiro novo vendedor parece gente boa e bom vendedor - tentarei ir com ele, já que iremos em dupla. Possui boa aparência, faixa dos 30 anos, deve ter experiência em vendas de remédios. Usa camisa polo, calça jeans e tênis, o que mostra que é um cara, como se diz, "dinâmico". Preciso mesmo de um cara dinãmico. Não trocamos uma única palavra.

A segunda nova vendedora é uma adolescente pós-paty, chata e viciada em Tíbia. Fala pelos cotovelos todas as futilidades possíveis. Reclama de Deus e o mundo na frente do chefe. Anda pelo escritório como se fosse a sua casa antes de irmos pra rua. Apesar de tudo, consegue ser metida. Sinto que não venderá nada nem que pague por isso. Fujo dela como o diabo da cruz.

A terceira nova vendedora estava na sala de "reuniões" com a minha "equipe" antes de eu chegar. Não olho sequer no seu rosto. Sua função metafísica é deixar o ambiente mais carregado e incitar a desordem pelos acidentes pelos quais não irá admitir nenhuma culpa - a inocência é um perigo de ordem mundial. Sua função social é tornar o ambiente pesado sem precisar de muitas palavras pra isso.

Em campo

Já na rua, dividimos as duplas. O baianinho do dia anterior se interessa por mim e pergunta se não quer que eu o acompanhe. Fico feliz em poder rejeitar, visto que quem escolhe são os chefes. Mas, na verdade, só há uma opção melhor que ele, visto que os outros, parece, estão "um pouco inseguros". Um dos chefes diz que eu e a terceira vendedora estamos mais (*faz um sinal pra baixo com as duas mãos, querendo indicar que estamos mais firmes - a posição a que ele chega a fazer é quase a conhecida "cagar no mato"*). Resolvo olhar pra cara da minha dupla. Ela se assemelha desesperadamente com uma baianinha que eu não suportava no meu curso de teatro. Até a voz assemelhando-se ao som de uma araponga na menopausa é idêntica. Seu rosto deformado com protuberâncias na testa me lembra um maracujá de gaveta. Quero morrer.

Nada contra os baianos, tudo contra a bainice! "Os baianos invadiram Ipanema para cantar 'Ai, que saudade da Bahia!'. Bem, se é por falta de despedidas, PT Saudações." - Paulo Francis

Nas primeiras vendas, apenas noto que ela fala muito devagar, ou atropela tudo para falar do produto. Parece que foge do ritmo correto de propósito. Não tem postura, e não parece tão "posição de cagar no mato de firme" assim. Temo entrar em desespero em breve.

Tomo a dianteira nas próximas. Lembro-me tardiamente de distribuir cartões. Mais tardiamente ainda, de que preciso anotar meu nome neles - e como vou ganhar por comissão sem essa droga, afinal?! Meu discurso parece mais convincente, mas ela luta bravamente para me interromper o tempo todo, como se temesse o que eu falo. Os possíveis clientes sentem que estamos nos degladiando nas entrelinhas. Uma delas chega a rir.

Num bar, ela começa a apresentar aos fregueses, enquanto falo aos donos, dos novos planos da TIM, que são, na verdade, antigos e não servem para Pessoas Físicas. Percebo que ela não sabe o que está vendendo, nem sequer como receber por isso - e, claro, ela sequer pensa nisso. Tardiamente, percebo que só não foi pior que ter ido com a pós-paty, que destila futilidades como um modo ôntico especial para suportar a existência. De qualquer forma, me convenço imediamente que não efetuarei nenhuma venda hoje.

Enquando uma vendedora nos dá uma canseira esperando pelo patrão, apesar de ter sorrido e demonstrado certo interesse, minha colega de dupla me faz perguntas. Pergunta-me se já trabalhei com isso. Onde moro. Coisas imbecis típicas de quem gosta de passatempos inúteis como conversar. Percebo, depois de uns instantes, que ela quer que eu demonstre a mesma curiosidade com ela. Sinto mesmo vontade de lhe perguntar algumas coisas.

- Vanessa, você gosta de quinas? E de furadeiras, você gosta? Não aprecia um bom veneno, não?

Sua aparência me lembra morbidamente um maracujá de gaveta.

Se apresentando a uma cliente, sem dar tempo dela dizer "oi", a maracujá pergunta se a cliente já possui um plano corporativo, sem nem explicar que esá tentando vender planos de celular. Fico imaginando a cliente responder:

- Plano corporativo? Ah, me desculpe, eu cancelei minha filiação à KGB há 3 meses...


Em outra ocasião, uma cliente fica mesmo interessa e faz perguntas importantes. Resolvo tomar a voz, apesar da minha companheira se desesperar para evitar isso. Responde à cliente com frases prontas que nada tinham a ver com o que ela perguntava. Interrompe mesmo a cliente. Chego a ouvir a cliente tentar terminar uma mesma pergunta cerca de 8 vezes. Após um tempo, percebo que ela sente pena de mim. Sim, minha querida, compre o que quero e sinta pena de mim. Nada feito. Ela só diz que vai pensar.

Minha companheira sequer percebe que precisa avisar às pessoas de que a venda tem de ser efetuada por nós - afinal, estamos trabalhando de graça? Chega mesmo a pedir que um cliente acesse o site da Embratel - que fala pouquíssimo do produto. A propósito, pergunto-me quem faria uma compra através de nós entrando no site da Embratel. Acho que ela está preocupada com a forma como eles pagarão o cachê da Ana Paula Arósio.

Noto mesmo que suas frases, apesar de alguma ordem no começo, logo se transformam num tiroteio aleatório demoníaco. Meu estômago urra de fome. Meus cartões com meu nome acabam - a única forma de obter alguma recompensa por essa tortura. Após um cliente avisar que não gasta nada com celular, ela imediatamente o lembra que também trabalhamos com prudutos da TIM. Manipulo para ver se podemos simplesmente sentar e esperar pela morte.

No fim, mesmo quando algum interesse aparecia, ela afungentava clientes como se fosse dotada de cascos e bafo de enxofre. Acho, aliás, que só não sinto isso pois estou no Brás. Desespero.

O dia só é válido pois minha fome é avassaladora, gasto que só o cão. Felizmente, meus chefes são bonzinhos e pagam a conta. Oras, pra quem não me paga nada para caminhar no Inferno, era o mínimo que poderiam fazer.

Resultado: quem quer se livrar das altíssimas contas de telefone, chega fixo ou móvel, favor falar comigo!!

E para quem estava no mesmo desespero que eu, até pouco tempo atrás, não se esqueçam disso.