sexta-feira, dezembro 08, 2006

O Capengal: O Livro (bem) Vermelho do Marxismo Universitário

frase do dia: "A diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo o que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina." - Millôr Fernandes


Rotos que me estão a ler! Eis aqui a apresentação do primeiro capítulo, ou melhor, do primeiro item do primeiro capítulo do meu mais novo livro - "O Capengal: O Livro (bem) Vermelho do Marxismo Universitário".

Trata-se de uma análise sociocrítica, sociohistórica, sociolingüística, sociopata, sociogenética e mais um monte de esquerdismos canhestros com "socio" no nome de uma força cada vez mais onipresente nas Universidades brasileiras: o MBM - Movimento Bolchevique Mauricinho.

Para quem estiver interessado, é uma renúncia fiscal de apenas 30 mais-valias, e vão fazer um universitário solitariamente reaça feliz! \o/

Aí está:


A Pré-História e Marx: a dialética sem diálogo

No princípio era a verba. Havia homens, mulheres e criancinhas – o homossexualismo, como se sabe, é uma perversão esquizofrênica da futura sociedade capitalista. Ninguém tinha inventado a aritmética, e não foi possível dividir as terras igualmente logo de cara, embora tudo fosse coletivo. Todos utilizavam o que era de todos – pelo menos de acordo com os livros de História – e, ao que parece, ninguém sabe se isso também valia para vocês-sabem-o-quê.

Um certo macho, muito provavelmente branco e americano, foi pegar na foice e no martelo para dividir os lucros com todos, bonzinho que era, e deixou a mulher na caverna. A mulher foi passear no bosque e acabou dando de cara com uma Cobra – alguns boatos afirmam ser um dos codinomes de Silvester Stallone. A Cobra quis enganar a mulher, fazendo-a se traumatizar com vermelho, e lhe mostrou uma maçã. Disse-lhe: “Eva, esse troço aí é coisa boa, mas é da árvore do conhecimento do Ben e do Mao. De qualquer forma, tirando alguns companheiros demitidos da Apple, isso nunca matou ninguém.”

A mulher comeu e gostou, mas passou a notar que estava nua – bem, isso é intriga de direita, mas estava usando coisas de segunda mão. Deu ao seu marido (a maçã) e esse também começou a ter idéias revolucionárias, sobre livre-concorrência e iniciativa privada, e como também notou que estava molambento, resolveu esconder as vergonhas com folhas. E assim, surgiu a primeira grife da história.

(Os marxistas, digo, as marxistas ligadas à linha Simone du Beauvoir insistem em dizer que foi o macho quem fez a cagada e só botou a culpa na mulher. É um comportamento tipicamente masculino, admitamos, mas essa de conversar com Cobra já é meio suspeita.)

Ora, assim sucedeu que o Paraíso inicial, onde o Estado bonzinho controlava tudo, foi abaixo com toda a pouca vergonha de se usar roupas de qualidade, e Deus, ou melhor, o gentil companheiro que cuidava dessas burocracias chatas teve de expulsar o casalzinho subversivo da maravilhosa ilha de bonança que era a sociedade livre, em que o Estado escolhe tudo por você. Eles foram pra leste do Éden e formaram um lugar que é um verdadeiro inferno, unindo as 12 tribos de Canaã num lugar chamado “Estados Unidos da América”. O Paraíso continuou sendo a ilhotinha onde tudo começou, e onde o Cara Lá de Cima continua governando até hoje, com sua barba, sua farda e seus discursos.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Uma Noite Antes da Guerra

ouvindo: Dead Can Dance - Persian Love Song
frase do dia: "Aqui, os soldados são como água derramada - a areia os engole." - Alberto Vazquez-Figueroa, 'Tuareg'
outra frase do dia: "O amor é a distância entre a realidade e a dor." - Robin Hitchcock

Um dia de guerra merece um gazel militar:


Uma Noite Antes da Guerra

Dizes-me que lutas em razão da amada
Eu te digo que ames mais tua espada

A lembrança não te faz vencedor da guerra
Alma ou arma - qual trazes mais afiada?

Golpes apaixonados não são mais certeiros
E um guerreiro sem lâmina não é nada

Sangue quente pede para ser derramado
Sem apagar as chamas de tua morada

Se o inimigo atalhar tua sorte
Tua senhora prantará a estocada

A cáfila trará teu corpo sem vitória
Ceifado pela morte desembainhada

Amigo, atente bem às minhas palavras:
A mulher do soldado é sua espada.


(04.12.2006)

terça-feira, outubro 17, 2006

A Trama que Levou à Corrupção

ouvindo: Shape of Despair - Quiet These Paints Are
frase do dia: "Marina, essa coisa de meio ambiente é igual a exame de próstata, não dá para ficar virgem a vida toda. Uma hora eles vão enfiar o dedo no cu da gente. Então, companheira, se é para enfiar que enfiem logo." - O Presidente Lula, para a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em época não-eleitoreira, quando ainda não precisava passar a impressão de que era contra a transposição do rio São Francisco.


Chega a doer. Como se já não me bastassem milhares de mensagens que recebo copiasamente, dia após dia, xingando o governo FHC (vá lá...) e defendendo a candidatura de Lula (agora não desce!), sou obrigado a entender que o brasileiro, no fim das contas, tem mesmo é que ter seu dinheiro rapelado sem piedade.

Todo o pessoal de esquerda tem um único discurso: todas as mazelas do país são causadas exclusivamente por causa do Eixo do Mal, a Tríplice Entende Veja-Globo-PSDB. Lula foi eleito e passou a ser o presidente que mais fez pelo Brasil, pelos pobres, pela Economia, o mais honesto, o mais inteligente, o mais perfeito, o mais humilde. Qualquer coisa de ruim que aconteça em seu governo é arapuca e macumba braba dessa Trindade Demoníaca.

A capa da Carta Estatal, digo, Capital dessa semana mostra como adoram falar mal da Veja por ela se declarar neoliberal, mas não existe imprensa mais imbecilizante do que esses papéis-higiênicos de esquerda (e nem me refiro apenas à qualidade do papel...). A “grande imprensa capitalista”, como adora dizer o PCO, falou mal de FHC, revelou os bastidores de crises que nenhuma imprensa esquerdista sequer descobriria, mostrou falcatruas tucanas, explorou o caso da dengue que deixou Serra em maus lençóis contra Lula. Aliás, exemplos abundam:




Fato é, como se diz em bom latim, Lends picantis in anus outrem ki sucus est. Assim como nossos funcionários públicos (bem mantidos e expandidos pelo governo Lulla, pois só esse tipo de emprego ele foi capaz de criar), nossa imprensa também ganha para ser incompetente. Nenhum veículo conseguiu tantas denúncias em sua história quanto a Veja - mas, para nossos companheiros da esquerda, só vale quando a denúncia não atira na direção deles.

A partir do segundo semestre de 2001, Diogo Mainardi começou a ficar famoso com suas colunas pessimistas e anti-Lula, a revista publicava semana a semana em sua capa Lula, e todos os escândalos envolvendo o PT na época - sempre reclamando da situação econômica, que, graças à especulação causada pelo medo de um possível governo petista, deixava o risco-país beirando as raias do infinito -, falava da prefeitura de São Paulo, falava de tudo. Os esquerdistas não gostaram. Mas nem se deram ao trabalho. Caros Amigos, Carta Capital, A Hora do Povo e, na época, O Pasquim (revitalizado por um curto período de tempo por Ziraldo) se calaram, ignoraram e apenas comemoraram o já óbvio reinado Lula.

Acontece que, para a mídia de esquerda, escândalo só existe quando está no quintal do vizinho. Tudo o que aconteceu no governo Lula deve ser ignorado, por mera birra de haver novamente um governo tucano. Fato esse que levou a Folha, no meio do ano passado, a colocar na capa um pedido de desculpas, em pleno fórum de Filosofia de São Paulo, por ocultar tanto o descaso com a administração pública do petismo. Ainda assim, intelectuais apoiadores do PT, como Marilena Chaui e Chico Buarque, se calaram, quando até Zezé di Camargo e Luciano reclamavam do presidente assistir a uma cópia pirata de "Dois Filhos de Francisco", e ainda dormir no meio do filme.

Para a Carta Capital, o fato dos tucanos obterem informações sobre o dossiê fraudulento contra Serra e Alckmin (trata-se apenas de vídeos mostrando os dois distribuindo ambulâncias, e uma entrevista posterior com um dos petistas presos dizendo que eles teriam participações no esquema petista das sanguessugas) é um pecado. Devem calar-se, afinal, é uma tramóia legítima, por ser de esquerda. Nunca foi vista uma apologia ao crime tão deslavada: mostrar as fotos dos 1,7 milhões de reais (tanto dinheiro assim não iria ser usado em propaganda política fraudulenta? Lula não sabia de nada?!) é considerado errado! Nunca, em toda a história da imprensa brasileira, foi visto tão acintosa declaração favorável à lavagem de dinheiro.

Alckmin deve espernear e explorar, sim, a história do dossiê. Afinal, ele não tem nada com isso. Foi atacado. E tem o dever, não só como vítima, mas como pagador de impostos, de exigir respostas desse dossiê fajuto. Eu também quero. E nem fui atacado por ele. Todos sabem que isso é uma tramóia com o erário público.

Votar em Lula só porque ele é de esquerda é uma birra infantil. Lula só cria empregos públicos (que deveriam ser cada vez mais limados, visto que não fazem o Brasil crescer, apenas gera aumento de impostos), fez a economia estacionar (o pior crescimento brasileiro-sobre-mundial, só perdendo para desastrosa gestão Collor, nos últimos 40 anos), fez tanta corrupção que fez FHC e Collor serem julgados no tribunal de pequenas causas.

FHC privatizou tudo. Se Lula fizesse esse discurso de "ser a favor de estatais" na Europa, não iria receber um único voto. Mas quem hoje trabalha na Tim, Claro, Vivo, Oi, Brasil Telecom, Engibrás, Vale do Rio Doce e tantas outras empresas que só existem por causa da administração tucana, não têm os seus empregos contabilizados na lista de "empregos criados pelo PSDB". Por quê? Não são bem mais que os míseros 4,5 milhões de Lula?!

Lula, por acaso, conseguiu independência de gás e do FMI sozinho? Não usa, por acaso, o mesmo modelo econômico de Armínio Fraga, só que com mais ortodoxia? Conseguiu ele, sozinho, acabar com a inflação, que ficou apenas 1% mais baixa que todo o período FHC junto? Não vai terminar o primeiro mandato com crescimento econômico de 0,6%, mais baixo que o período mais baixo de FHC (e, pior, pela segunda vez)? Acaso Lula corrigiu o país inteiro sozinho? Também foi ele que criou o Plano Real, talvez?

Mas os tucanos, apesar de fazerem mais, se granjeiam como neoliberais. Lula, adora se dizer "do povo". E, com isso, um povo idiota ainda gosta mais dele. Apoiar um crime é concordar com ele. Votar num criminoso pode, um dia, fazer alguém ser preso por formação de quadrilha.

quarta-feira, julho 05, 2006

Um trecho do meu livro

ouvindo: Slayer - God Send Death
frase do dia: "Nunca diga nada a não ser que tenha certeza de que todo o mundo pensa o mesmo" - Homer Simpson, o Filósofo

Às vezes, ou melhor, muito raramente, alguma alma, possivelmente com problemas de parafusamento, me reclama que eu estava a escrever um livro e o chutei pra escanteio. Já ouvi até uma vez (claro, só uma) que gostariam de tê-lo lido, ao menos o que escrevi antes de tê-lo dado de presente às traças da minha nova cômoda.

Pra não fazer dele um monte de papelada inútil, e transformá-lo em um monte de bytes inútil, poupando árvores que já foram cortadas e desperdiçadas, resolvi deixar aqui um trechinho com boa dose de "auto-biografia" (trata-se de um trecho em que um personagem, após dias tendo de visitar pessoas esquisitas em seu trabalho de técnico de informática, entra numa lojinha para comprar seus suprimentos de banheiro).

Bem, sei que muita gente detesta meu jeito pouco lacônico de ser, como escrever 3 parágrafos só de introdução, então, quem quiser leia, que leia, quem não quiser... bem, pergunto-me o que diabos quis cheirar aqui. Não sei o que farei com esse livro, talvez tudo o que escreva por inteiro mesmo seja minha própria auto-biografia sobre mim por eu mesmo, que publicarei postumamente, ou se sobreviver até os 70 anos, com o provisório título de "Vovós Que Comi Quando Eram Netas".

Ei-lo:

...............

Mark entrou numa lojinha e uma vendedora com um horroroso sotaque do interior se apressou a lhe perguntar: “Quer ajuda?” – seu sotaque era tão ridiculamente desagradável que esse anátema em forma de caridade comercial – “Quer ajuda?” – se repetiu na cabeça de Mark, martelando sua razão, por dias afinco.

Após declinar rapidamente o ominoso convite a ter sua macambúzia estada na vendinha acompanhada por uma “gente” do interior, Mark foi pegar o que queria comprar, ansioso por dar o fora. Ao se virar para se ir, o que assumia o simbolismo da liberdade revolucionária de ir-se embora e voltar a pensar por si próprio, sem embalagens nem vendedores para tomar sua razão, uma gorda que conversava aos berros com outra vendedora, velha, passou na sua frente na fila quase o atirando longe, correndo para o caixa, portão de São Pedro guardando o Paraíso da rua.

Já percebendo que perderia mais alguns preciosos momentos de sua vida dentro da loja, armou o escudo de ficar de costas para a jovem vendedora de sotaque nojento, caso ela investisse mais uma vez em oferecer seus prestimoniosos serviços novamente – como, por exemplo, andar dois passos, ou um e meio, e mirar a prateleira de shampoo, mantendo-se hirta ao seu lado a observar se ele compraria o modelo para quem tem caspa, piolho ou simplesmente cabelo ruim.

Escudo funcionando, gorda sem berrar (tanto) por estar enfrentando problemas para encontrar as moedas no fundo da bolsa e concluir alguma conta de somar com as que conseguiu encontrar, Mark percebeu a TV ao fundo, ligada no jornal do meio-dia, que começa às 13 (o mesmo jornal que a anfitriã de ontem anunciou gostar por causa “das reportagem”). O repórter apresentava o fascinante caso de uma cidade do interior cujo cemitério público ficou tão lotado, sem disponibilidade extra em nenhuma cidade próxima, que o prefeito teve a insólita idéia de proibir os habitantes de morrer.

“Saramago iria adorar essa”, Mark pensou, mais próximo da liberdade pela passagem inexorável e irreversível dos 50 segundos em que a gorda finalmente se desvencilhava das moedas e agora ia embora, não sem antes se despedir da vendedora velha e da interiorana, mandando lembranças a pessoas de nomes risíveis e profetizando que passaria depois, com mais tempo, para conversarem melhor.

“Talvez queira dizer que virá com dinheiro graúdo, sem moedas para ter de ficar contando”, concluiu Mark. Enquanto passou no caixa (tempo total da manobra: 27 segundos, sendo 8 para o vendedor lhe dar “bom dia” sem se tocar que já era 13:17 e mais outros 15 para o dito lhe entregar uma moeda de troco, pois Mark já estava com o dinheiro quase exato previamente separado), ouviu de longe o aprofundamento da importantíssima reportagem televisiva, no qual o repórter anunciava que a câmara de 12 (!!!) vereadores da cidade estava em dúvida sobre qual dia marcar a reunião para decidir qual seria a pena dos infratores que viessem a desrespeitar a lei de não-morte.

Sem se preocupar em se irritar imaginando o que 12 “gentes” faziam tão ocupadamente com dinheiro público numa cidadezinha de 2 mil pessoas em que nada acontecia para estarem discutindo tão avidamente sobre qual dia marcar tão difícil reunião (em que, no mínimo, 50% delas teriam a difícil missão de comparecer e trabalhar no mesmo dia), Mark objetou: “Será que é desse fim de mundo que a vendedora interiorana vem?”. Já é tão difícil demonstrar a essas “gentes” que elas estariam melhor se estivessem mortas, e ainda lançam uma lei que parece até interessante por fazerem-nas ficar mais acostumadas com a joie de vivre...

Fugiu para a liberdade. Freud possivelmente chamaria sua angústia, dentro da vendinha, de “Complexo de Ulisses preso em Circe”.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Dois Filhos de Francisco

ouvindo: Slayer - Seasons in the Abyss
frase do dia: "Você pode evitar descendentes. Mas não pode evitar antepassados." - Millôr Fernandes

Geralmente, nem explico muito como chego às situações bizarras que me fazem escrever nesse blog. Desta feita, o negócio é mais sério, portanto, melhor explicar direitinho.

Estava eu fazendo um treinamento numa empresa. Esses treinamentos são ministrados por pessoas que quiseram escrever um livro de auto-ajuda mas não conseguiram soletrar o nome na capa. Ao invés de se falar sobre técnicas de venda, especificações do produto ou coisas mais pragmáticas e funcionais, esses treinamentos funcionam como centros espíritas: usando palavras como "motivação", "atitude positiva", "esperança" e demais zen-budismos canhestros.


Como estava com medo de que logo tivéssemos de praticar movimentos de yoga pela sala e abraçar o chão para sentir os chakras vibrando, fiquei até feliz com o velho esquema de ver um filminho cretino como exemplo para o que estávamos... ahn... estudando.

Só não sabia que o filme escolhido seria "Dois Filhos de Francisco"... ¬¬

Mas tudo bem, foi só um trechinho. O trecho é mais ou menos o seguinte: O sr. Francisco, pai dos futuros "Zezé de Camargo" e "Luciano", atuais parceiros do sertanejo Chico Buarque, é apaixonado por música, mas é um retirante pobre e fodido. Pra isso, faz o filho cantar uma música num festival popular perdido no interior do Brasil sem saber cantar, e este passa uma vergonha do caramba, como era de se supor.

Logo após, vemos o seu Francisco (não o Buarque, o outro baianão) trocando toda a sua colheita de um mês por um violão e um acordeão (ainda não descobriram quem foi o maldito que inventou esse troço?!) - e, depois, pegando todo o seu salário e investindo em fichas (é, eu também não entendi) para a gravação do CD dos filhos.

Tudo culmina com "É o Amor" sendo tocada no Olympia, após vender mais de 1 milhão de cópias. É, isso mexe com minha cabeça e me deixa assim...

Enfim, esse trecho foi passado para nós para explicar como devemos "acreditar" no nosso trabalho, "investir", e mais toda aquela papagaiada que, supostamente, nos fará vender mais.

Claro, estava quase dormindo, e no Coffee Break nem tinha café (!!!), mas isso me incitou alguns questionamentos filosóficos:

O Sr. Francisco (o pai da dupla caipira, não o terceiro caipira na dupla), tido como um exemplo a ser seguido, é uma gota d´água num oceano em que quase nada floresceu. Vejamos: o cara era apaixonado por música caipira e fez os filhos aprenderem na manha (quase na porrada), aliás, até os fez passar vergonha sem aprenderem nada sobre música antes disso. Imagine se o Sr. Francisco (o mentor, não o acompanhante) fosse apaixonado mesmo era por uma boa safra de cacau, e fizesse os filhos ficarem pisando em cima daquela porcaria o tempo todo? Todo mundo acharia bonito e mandariam um filme feito sobre isso para ser julgado pela Academia do Oscar?

Pior: é bem claro que nesses fins-de-mundo (no rancho fundo, etc, etc..) ninguém tem muita personalidade - para se ter personalidade, só nascendo filho de rei do gado. Mas daí a aproveitar um exemplo frutífero, que transformou dois caipiras fodidos (aliás, nem tanto assim) em dois caipiras fodedores e achar que isso é uma lição de moral a ser levada adiante é de doer.

Um exemplo do que quero dizer: no interior perdido deles, é até natural que todo mundo queira mesmo é virar astro da música sertaneja, como é comum que nos morros do Rio, ou se queira virar astro da MPB ou chefe de bando do narcotráfico. Mas já pensou se fosse diferente? Num mundo rural, onde todos estão mais próximos de ser pequenos animais agindo por instinto, suponhamos que um dos filhos de Francisco (o da música caipira, não o da música popular brasil... ahn, deixa essa pra lá) resolve virar dançarino de ballet? E vai que o desgraçado ainda tivesse talento pra isso! Será que ele obteria o mesmo incentivo?

Ou pode ser que a música caipira-romântica-dor-de-corno não fosse mesmo "o tchan" pros caras... como é que seria?

- Filhinho, te comprei esse acordeão e você vai aprender a tocar, pois vai crescer e será um grande sucesso da música sertaneja!
- Mas papai, eu quero mesmo é uma guitarra com distorção no pau...
- Mas para quê, meu filho?!
- Oras, eu quero tocar Morbid Angel e louvar a Satanás...
- Como assim, não vai realizar o sonho do papai de ser rico, famoso e pagar meu asilo?!?!
- Não, eu curto um som porrada, música sertaneja é o caralho, eu quero tocar é death metal...

Dá pra imaginar como seria o comportamento desse povo, "que serve de exemplo", em situações, digamos, delicadas, como essa.

Afinal, é o sonho do pai, na vida do filho. E se fossem coisas incompatíveis?

Pra completar, pior seria se o sonho de Francisco (o que só tem filhos reconhecidos) desse errado. Aliás, quantos não dão, para eles pegarem o único exemplo que deu certo numa seara pouco vasta como o interior do Basil e dizer que "quem agir como eles, consegue"? Imagine só o sr. Francisco (o que tem um salário que dá pra contar) investindo toda a sua suada bufunfa de um mês no disco dos filhos, que se torna um fiasco de vendas? O lema não é "acreditar" e "pensar positivo"? Afinal, quantos "srs. Franciscos" fizeram isso Brasil à fora e tomaram na bunda?

Só mesmo concluindo com uma análise semiótica sobre "É o Amor" tocada no Olympia, atualmente vendido para a Igreja Universal, como uma conclusão em que os caipiras atingindo o alto do monte grego onde até o Lacrimosa já tocou só significa que o amor é lindo. Deve ser por isso que todas correm atrás do amor de Francisco. (dessa vez, do outro Francisco.)

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Vendendo o peixe

ouvindo: Great Big Sea - Ferryland Sealer
frase do dia: "Por mais bem feito que seja o seu trabalho, o patrão sempre achará onde riscá-lo." - Desconhecido


ATENÇÃO: Todos os personagens reais dessa crônica são fictícios. Qualquer semelhança com qualquer pessoa real é uma cagada. Para evitar que os personagens fictícios dessa ficção me achem no orkut, meu nome estará temporariamente em grego.

Enfim, achei a causa honoris que me fez ressuscitar esse blog: um maldito emprego (isso também responde meu sumiço desde Outubro). E nada melhor que um primeiro dia para reanimar o mau humor de qualquer um. Em detalhes picados, adiante.

A Entrevista

Chego bem mais tarde do que esperava. Ainda no longo horário que me permitiram, mas achar aquele lugar foi um inferno. Acho que estou bem vestido. Acho que meu cabelo não resolveu se auto-destruir no meio do caminho. Enfim, chego lá, com meia hora de antecedência para o fim do horário. O espelho do elevador me dá o aviso na última hora: sim, meu cabelo está o lixo monstruoso em formato de floresta de arame farpado que se arma grotescamente, e já estou quase chegando. Agora, resta pouco a fazer, o que, a essa altura, significa nada. Meu aspecto assemelha-se morbidamente a uma mantícora despenteada.

Entro na sala. Atendentes operando telemarketing. Todas elas feias. Ninguém com cara de chefe a vista. Logo, identifico o perigo à minha frente: o chefe é muito novo, o que indica que a empresa é muderna e não vai gostar muito de eu parecer ter acabado de sair do primeiro dia da Terceira Guerra Mundial.

Minhas mãos estão tão suadas que não consigo segurar a caneta, de uma forma que nunca aconteceu. Acho estranho pois não estou nervoso - já abandonei qualquer esperança depois do espelho, espelho meu - assim como Caronte diz para qualquer navegador abandonar sua esperança ao cruzar os portais do Inferno. Noto o problema: está um tamanho calor, que suo de verdade, não por nervosismo. Minha testa está quase pingando. Apesar do banho de perfume triplicado, acho que o suor já é indisfarçável. A coisa vai mal.

Entro na sala, após entregar a ficha quase em branco - que eu posso fazer, sendo que ela quase inteiramente foi dedicada à minha passada experiência profissional inexistente? Após uma série de perguntas, percebo que esse chefe não reclamou da minha cara - o que estranho, visto que ele não parece com muita vontade de me mandar pro diabo. Enfim, tudo parece certo, no fim.

A Equipe Alfa

Dia seguinte. Alguns vendedores, junto comigo, sofrerão treinamento. Entristeço-me logo de cara ao perceber que iremos trabalhar em equipe - como se já não bastasse a aporrinhação, ainda vou dividir minhas difíceis e baixas comissões?!

A equipe consiste em um perdido numa noite suja de 19 anos que foi expulso do maternal, com a maior cara de office-boy, aliado a um japonês mais perdido que namorada de gêmeo (japonês). Eles parecem muito entusiasmados. É uma péssima notícia. Eles passam telefones de conhecidos que querem comprar o produto (pacotes de telefonia com redução de custos). Tudo pelo bem da "equipe". Ótimo. Clientes gratuitos. Ao menos, uma boa nova.

Após as rápidas explicações mais detalhadas de um dos pacotes, os chefes saem todos em reunião. O resto, é discussão do que vamos fazer, entre nós. Engraçado que sinto que estou quase dando uma aula para os dois goiabas. Na maior cara dura, um deles me pergunta se entendi bem o último modelo. Chego a me levantar, pegar a caneta e ficar explicando tudo na lousa. Logo, me pergunta do antepenúltimo, e assim vai, até o primeiro. O outro quase chega a tomar notas. Estão perdidos. De qualquer forma, foi uma ótima tática dele de perguntar sobre tudo sem admitir que não entendeu nada.

Sinto que a equipe é uma catástrofe.

A Equipe Beta

Mais um dia. Vamos pra campo. Treinamento na rua, porta-a-porta. Sinto-me um vendedor de Enciclopédias.

Estou com outros vendedores no Brás (bairro abarrotado de lojas de roupas populares). Há mais 3 vendedores junto com os dois baianinhos iniciais.

O primeiro novo vendedor parece gente boa e bom vendedor - tentarei ir com ele, já que iremos em dupla. Possui boa aparência, faixa dos 30 anos, deve ter experiência em vendas de remédios. Usa camisa polo, calça jeans e tênis, o que mostra que é um cara, como se diz, "dinâmico". Preciso mesmo de um cara dinãmico. Não trocamos uma única palavra.

A segunda nova vendedora é uma adolescente pós-paty, chata e viciada em Tíbia. Fala pelos cotovelos todas as futilidades possíveis. Reclama de Deus e o mundo na frente do chefe. Anda pelo escritório como se fosse a sua casa antes de irmos pra rua. Apesar de tudo, consegue ser metida. Sinto que não venderá nada nem que pague por isso. Fujo dela como o diabo da cruz.

A terceira nova vendedora estava na sala de "reuniões" com a minha "equipe" antes de eu chegar. Não olho sequer no seu rosto. Sua função metafísica é deixar o ambiente mais carregado e incitar a desordem pelos acidentes pelos quais não irá admitir nenhuma culpa - a inocência é um perigo de ordem mundial. Sua função social é tornar o ambiente pesado sem precisar de muitas palavras pra isso.

Em campo

Já na rua, dividimos as duplas. O baianinho do dia anterior se interessa por mim e pergunta se não quer que eu o acompanhe. Fico feliz em poder rejeitar, visto que quem escolhe são os chefes. Mas, na verdade, só há uma opção melhor que ele, visto que os outros, parece, estão "um pouco inseguros". Um dos chefes diz que eu e a terceira vendedora estamos mais (*faz um sinal pra baixo com as duas mãos, querendo indicar que estamos mais firmes - a posição a que ele chega a fazer é quase a conhecida "cagar no mato"*). Resolvo olhar pra cara da minha dupla. Ela se assemelha desesperadamente com uma baianinha que eu não suportava no meu curso de teatro. Até a voz assemelhando-se ao som de uma araponga na menopausa é idêntica. Seu rosto deformado com protuberâncias na testa me lembra um maracujá de gaveta. Quero morrer.

Nada contra os baianos, tudo contra a bainice! "Os baianos invadiram Ipanema para cantar 'Ai, que saudade da Bahia!'. Bem, se é por falta de despedidas, PT Saudações." - Paulo Francis

Nas primeiras vendas, apenas noto que ela fala muito devagar, ou atropela tudo para falar do produto. Parece que foge do ritmo correto de propósito. Não tem postura, e não parece tão "posição de cagar no mato de firme" assim. Temo entrar em desespero em breve.

Tomo a dianteira nas próximas. Lembro-me tardiamente de distribuir cartões. Mais tardiamente ainda, de que preciso anotar meu nome neles - e como vou ganhar por comissão sem essa droga, afinal?! Meu discurso parece mais convincente, mas ela luta bravamente para me interromper o tempo todo, como se temesse o que eu falo. Os possíveis clientes sentem que estamos nos degladiando nas entrelinhas. Uma delas chega a rir.

Num bar, ela começa a apresentar aos fregueses, enquanto falo aos donos, dos novos planos da TIM, que são, na verdade, antigos e não servem para Pessoas Físicas. Percebo que ela não sabe o que está vendendo, nem sequer como receber por isso - e, claro, ela sequer pensa nisso. Tardiamente, percebo que só não foi pior que ter ido com a pós-paty, que destila futilidades como um modo ôntico especial para suportar a existência. De qualquer forma, me convenço imediamente que não efetuarei nenhuma venda hoje.

Enquando uma vendedora nos dá uma canseira esperando pelo patrão, apesar de ter sorrido e demonstrado certo interesse, minha colega de dupla me faz perguntas. Pergunta-me se já trabalhei com isso. Onde moro. Coisas imbecis típicas de quem gosta de passatempos inúteis como conversar. Percebo, depois de uns instantes, que ela quer que eu demonstre a mesma curiosidade com ela. Sinto mesmo vontade de lhe perguntar algumas coisas.

- Vanessa, você gosta de quinas? E de furadeiras, você gosta? Não aprecia um bom veneno, não?

Sua aparência me lembra morbidamente um maracujá de gaveta.

Se apresentando a uma cliente, sem dar tempo dela dizer "oi", a maracujá pergunta se a cliente já possui um plano corporativo, sem nem explicar que esá tentando vender planos de celular. Fico imaginando a cliente responder:

- Plano corporativo? Ah, me desculpe, eu cancelei minha filiação à KGB há 3 meses...


Em outra ocasião, uma cliente fica mesmo interessa e faz perguntas importantes. Resolvo tomar a voz, apesar da minha companheira se desesperar para evitar isso. Responde à cliente com frases prontas que nada tinham a ver com o que ela perguntava. Interrompe mesmo a cliente. Chego a ouvir a cliente tentar terminar uma mesma pergunta cerca de 8 vezes. Após um tempo, percebo que ela sente pena de mim. Sim, minha querida, compre o que quero e sinta pena de mim. Nada feito. Ela só diz que vai pensar.

Minha companheira sequer percebe que precisa avisar às pessoas de que a venda tem de ser efetuada por nós - afinal, estamos trabalhando de graça? Chega mesmo a pedir que um cliente acesse o site da Embratel - que fala pouquíssimo do produto. A propósito, pergunto-me quem faria uma compra através de nós entrando no site da Embratel. Acho que ela está preocupada com a forma como eles pagarão o cachê da Ana Paula Arósio.

Noto mesmo que suas frases, apesar de alguma ordem no começo, logo se transformam num tiroteio aleatório demoníaco. Meu estômago urra de fome. Meus cartões com meu nome acabam - a única forma de obter alguma recompensa por essa tortura. Após um cliente avisar que não gasta nada com celular, ela imediatamente o lembra que também trabalhamos com prudutos da TIM. Manipulo para ver se podemos simplesmente sentar e esperar pela morte.

No fim, mesmo quando algum interesse aparecia, ela afungentava clientes como se fosse dotada de cascos e bafo de enxofre. Acho, aliás, que só não sinto isso pois estou no Brás. Desespero.

O dia só é válido pois minha fome é avassaladora, gasto que só o cão. Felizmente, meus chefes são bonzinhos e pagam a conta. Oras, pra quem não me paga nada para caminhar no Inferno, era o mínimo que poderiam fazer.

Resultado: quem quer se livrar das altíssimas contas de telefone, chega fixo ou móvel, favor falar comigo!!

E para quem estava no mesmo desespero que eu, até pouco tempo atrás, não se esqueçam disso.