terça-feira, julho 05, 2005

Mainardi e Houellebecq

ouvindo: Opeth - Silhouette
frase do dia: [Quando lhe pergutaram por que sempre voltava ao Brasil, quando podia viver sossegado nos EUA]: "Volto para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% de brasileiros que pagam imposto de renda. Para perder o apetite ou morrer de indigestão. Volto porque nunca saí daqui." - Tom Jobim

Ora, veja, Diogo Mainardi falou do Houellebecq na sua coluna na Veja dessa semana (sim, eu leio Veja! já não assisto TV nem por anátemas, se não ler Veja sabendo todas as notícias com uma semana de atraso, tava até hoje querendo saber o que é um "mensalão"). É meio engraçado quando as coisas acontecem tão perfeitamente assim, pois tudo parece meio deslocado.

Mainardi é meu atual colunista preferido. Tá, ele não nega que é um Paulo Francis piorado, mas até aí, também, é querer demais. Ele faz o seu papel de chato muito bem. Mas achei engraçado ele falar de um livro que veio parar nas minhas mãos por um acaso chamado Fábio, e que logo se tornou um dos meus livros preferidos escritos no séc. XX.

Houellebecq (ainda tô lendo a revista pra digitar essa merda direito) fala de tudo em seu livro Partículas Elementares. Manipulação genética, teoria literária, geração Beatnick, suicídio ocidental, islamismo e, como não pode faltar, amor, sexo e morte. E, claro, como excelente escritor que é, só fala mal de Deus e o mundo. Mas a ligação que Mainardi fez na sua coluna dessa semana é que ele, num curto parágrafo no livro inteiro, também fala mal do Brasil. Diz que nosso país é uma porcaria, "povoado de brutos fanáticos por futebol e por corridas de automóvel. A violência, a corrupção e a miséria estavam no apogeu. Se havia um país detestável, era justamente e especificamente, o Brasil."

Mainardi, por increça que parível, ainda usou de eufemismos. Vou até a página 146 e vejo lá o contexto todo. Bruno está num camping de nudistas/ex-hippies/qualquer-putaria-que-o-valha atrás apenas de sexo, usando as malditas meditações tântricas e outras viagens psicodélicas apenas para poder comer alguém sem ter de perguntar o telefone depois. À noite, Bruno vê a roda de danças malucas que ajunta todo o Espaço de Mudança. Aproximando-se de uma vítim... digo, de uma jovem garota com quem puxa papo, em dado momento Bruno pergunta: "Não danças?". Sophie responde: "Não, não gosto das danças africanas, é demasiado..." - interrompendo-se ao perceber que estava no limite do racismo, emenda: "Mas adoro as danças brasileiras..."

"Não era preciso mais para irritar Bruno. Começava a encher o saco dessa estúpida mania pró-Brasil. Por que o Brasil? Conforme tudo o que sabia, o Brasil era um país de merda, povoado de brutos fanáticos por futebol, etc. etc.."

É claro que o Mainardi não pode dizer o que Bruno pensou in facto. Mas vejamos ainda o que ele responde a Sophie:

"Sophie, eu poderia ir ao Brasil, em férias. Passearia nas favelas, num microônibus blindado; observaria os pequenos assassinos de oito anos, que sonham em ser chefes de bando aos 13 anos; não sentiria medo, protegido pela blindagem; à tarde, iria à praia, entre riquíssimos traficantes de droga e de proxenetas; no meio dessa vida desenfreada, esqueceria a melancolia do homem ocidental..."

É óbvio que nossa Sophie passou longe de Bruno e de suas verdades meio ébrias. Mas o que espero é a enxurrada de cartas que vai ser enviada ao sr. Mainardi na próxima semana por falar novamente "mal" do Brasil. Puta que pariu nossa pátria, quando esse povo fala mal do vizinho pinguço, da violência escancarada e matando seus filhos, da corrupção no partido do povo, da burocracia, do desemprego e de todas as mazelas que só fodem suas vidas, está tudo bem. Quando é alguém que admite com todas as palavras que esse país é uma merda, reclamam!

Definitivamente, o pior do Brasil é o brasileiro.

3 pessoas leram e discordam:

fabbio disse...

eu sou o seu guru!

Morning Star disse...

Um comentário em nome da concordância nominal.

Lady Drago disse...

Cada um com seu cada um e deixa o cada um dos outros!
A grama do vizinho é sempre mais verde, mas nem te atreve a falar q a minha grama é menos verde q a do meu vizinho!!

É sempre assim: todo mundo sabe, mas - sei lá, talvez - se a gente n falar alto talvez ning perceba, né!


=D