domingo, maio 22, 2005

"Arte" Moderna (pt. 2)

ouvindo: Theatre of Tragedy - Black as the Devil Painteth
frase do dia: "O que o mundo precisa é de mais gênios humildes. Hoje restam poucos de nós." - Oscar Levant

Primeiramente, minhas desculpas pela demora com a continuação de minha destilação venenosa ao Modernismo - época de trabalhos da faculdade (felizmente, trabalhos que pouco tinham a ver com esse lixo) mais complicações com o código do blog (que eu sempre insisto em ferrar mesmo que não chegue perto dele) fizeram com que eu desconfiasse que a "Macumba de Pai Zuzé", do Manuel Bandeira, pega mesmo.

Segundamente, acabei por deletar tudo o que já tinha escrito antes por aqui (pela quarta vez) por parar pra pensar um pouco e chegar à algumas conclusões. O que chamam de "arte moderna" é, muitas vezes, bem diferente do que chamam de "Modernismo". Por mais que tenha minhas sérias ressalvas a vários deles, seria uma burrice de minha parte seguir os exemplos acadêmicos e colocar todas as escolas de vanguarda no mesmo pacote do que é chamado Modernismo. Marcel Proust, Franz Kafka, Pablo Picasso (sempre tão artístico quanto uma poça de vômito), Salvador Dali, Ezra Pound, T. S. Idiot, digo, Eliot, Max Reinhardt, a escola expressionista alemã, o impressionismo russo, e tantos outros, bons ou ruins, não podem estar lado a lado de dejetos pseudo-culturais como o que o Modernismo produziu. Sendo assim, me alço aqui apenas ao que é chamado "Modernismo" par excellence.

Munch, Rembrandt, Goya, Dali e tantos outros souberam criar um outro mundo, impositivo, que não apenas retratava a realidade, criava um outro mundo. Não há como ver "O Beijo" ou o famosíssimo "O Grito" de Munch e não dar conta de uma visão ultra-pessoal do artista, uma atmosfera impossível de escapar, um mundo criado com tons onde o preto está sempre presente, a tela como algo do qual é impossível fugir. Quando nos lembramos de que aquilo é apenas um pedaço de papel com tinta mistura em cima, entendemos do que um gênio é capaz.
Já nossos pintores modernistas, como Anita Malfatti, acharam que simplesmente pintar uma mulher de amarelo ao invés das cores óbvias era ser "visionário".

"A Boba", de Anita Malfatti

Alguma sensação estésica sublime, que faz com que um amontoado de cores em nossa frente cause torções em nossos sonhos? Ou apenas se vê que nossa querida amiga Anita desperdiça seu talento criando algo como dieta de diabético (sem sal nem açúcar), uma imagem que facilmente esquecemos assim que esses olhos tortos param de olhar para nós? Ainda lembro que foi essa a crítica que Monteiro Lobato fez à sua exposição (tudo bem, me arrisco em usar esse fato, visto que Lobato sequer foi à tal exposição): "Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas (...) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva."

Evoco até mesmo uma brincadeira ocorrida na França, quando ataram um pincel ao rabo de um burro, misturaram as tintas, fizeram uma legítima "arte abstrata cubista/dadaísta/futurista/insira-aqui-seu-ista", deram um nome absurdo (Pôr-do-Sol em Sabe lá Deus onde) e colocaram numa exposição como a maior novidade da Arte. Não deu outra, todos amaram, até que contaram da farsa.

Arte de burros. Nada além. Arte onde tentam, uma vez, tirar uma rima. Depois, tirar a melodia. Logo, tiram todo o gênio criador e se produz apenas uma arte sem arte!

Perdoem-me pela verdade, modernistas puristas, mas não existe arte sem inteligência.

Mário de Andrade, para voltar pra Literatura, é o perfeito exemplo do anacronismo moderno. E o perfeito exemplo de que não há criação alguma por ali: apenas ataques indiretos à escolas anteriores (que se eram ruins, conseguiram soar até palatáveis perto de seus livros). "Desvairada" é uma palavra não cabível ao título de seus livros apenas no sentido iconoclasta. Também vale pela falta de propósitos de sua narrativa. É tão cheio de expressões copiadas dos falares caipiras (em plena São Paulo que abria as portas para a industrialização) que sua narrativa, tentando fluir como a voz, acaba empacando por suas letras trocadas sem nexo. Aliás, por que, já que o projeto era este, ele também não escreveu "prédiu", "normáu" e "istou", então?!

O ridículo se apiora com Oswald de Andrade. O exemplo-mor de onde a hipocrisia humana chegou. Queria mostrar que o falar do povo era o correto, ao contrário do elitismo-troglodita-imperialista de um maldito livro de gramática. Mas quando foi fazer discursos inflamados na Semana de Arte Moderna... é melhor estar com um dicionário de expressões parnasianas para entender o que quis dizer... se bem que ele não quis dizer nada.

Estudou, como Mário, muito do índio e sempre quis mostrar que o europeu, chegando em terra brasilis, só quis ferrar com ele. Mas, novamente, não quer ir viver no meio do mato e tem todo o estilo europeu de ser, mas nunca admitindo que seus modelos, na verdade, são uma lambança genérica de tudo que não é propriamente seu e, ainda por cima, são completamente desprovidos de lógica. O nosso Policárpio Quaresma, em carne e osso.

Sua mulher, Pagu, como todos os seus relacionamentos rompidos, é a mostra do servilismo modernista a um ideário perdido no Reino do Nada que... bem, só nos deixa perdidos mesmo. Artista medíocre, só teve suas obras expostas e famosas pela influência acadêmica (*náuseas*) de seu marido. Vermelha como ele, largou cegamente (como uma crente pentelha) os salões pseudo-intelectuais para uma causa maior: o Partido Comunista, trabalhando até mesmo como prostituta para dar (opa!) informações (ah!) para nossos amigos bolcheviques que, também, não fizeram nada de útil. Pergunta: se não fosse um regime ditatorial que dominou nossa política por anos a fio, todas essas atitudes insanas teriam algum valor?

Poderia passar dias digitando meus volteios sobre Manuel Bandeira, mas como o pessoal da Letras é que mais acessa essa coisa, e todo mundo está de saco cheio de fazer análises cirúrgicas de "poemas" que não dizem nada, prefiro ignorar a mijadinha do gato na pensão burguesa, o seu porquinho-da-índia e quando o "poeta" levava ele (sic) pra sala, prefiro ignorar sua tentativa pueril (no mau sentido) de imitar Debussy e suas canções infantis, sua sonífera descrição da preta Irene entrando no Céu e sua aforismática lição de vida, pois, enquanto uns tomam ecstasy e outros cocaína, ele, que já tomou tristeza, hoje toma alegria. (o primeiro arrombado que fizer ligações entre um título de seus livros e minha pessoa será empalado!!)

Prefiro me ater a um aspecto curioso de sua... "obra". Todos aqueles que a dissecam, como se houvesse um grande tesouro a ser encontrado no fim do arco-íris, a justificam. "Tal verso é assim pois a vida do escritor...", "Tal passagem evoca a infância do poeta no Recife...", "Aqui, vemos Bandeira já triste por causa da doença..." - por Pólux! Alguém precisa analisar a vida de Marlowe pra entender a grandiosidade megalomaníaca de Fausto?! Alguém consegue analisar a infância de Nietzsche para saber como ele chegou ao "Umwertung aller Werte"? Isso é coisa de psicanalista. Esses caras acham que um adulto é uma criança perdida de si mesmo.

Com tantas justificativas, vemos que tais críticos até sabem que ler isso é um erro, perda de tempo, mas tentam justificar sua "visão atual de arte" (ao invés de lerem um livro complicado mas inteligente) com tanta argumentação. Se tais poesias tivessem tanta retórica quanto seus próprios defensores, com certeza seria bem melhor!

Mas aí resta a pergunta: mesmo que Bandeira consiga "captar o momento em palavras rítmicas" e mostre todo o seu "gênio" lembrando de sua infância, o que diabos isso muda a minha vida?! Eu dormiria mais ignorante sem saber disso?! Pois bem. Pensem em como suas vidas mudaram ao lerem Bocaggio, Marquês de Sade, Moliére, Turguêniev ou Rimbaud e cheguem às suas próprias conclusões.

Mais umas palavrinhas de Lobato, ao lembrar também das ligações forçadas entre essas estéticas e os delírios dos loucos: "De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura."

O chatíssimo João Cabral de Melo Neto nos ensinou como ser moderno é ser caipira. Estar de acordo com a arte moderna é falar como um bóia-fria. É ignorar qualquer inteligência que tenha sido produzida anteriormente (e que gerou tal "modernidade"). Um jornalista do Estado de São Paulo, também poeta, ao conversar com ele, ao perceber que ele só falava de seus parentes, achou que se perguntasse ao "poeta" pernambucano o que ele sabia sobre 15 de Agosto de 1914, João Cabral iria responder sobre o nascimento de algum afilhado, esquecendo da eclosão da Primeira Grande Guerra.

Em um encontro em Paris, houve uma discussão entre dois modernosos, João Cabral e Vinícius de Moraes. Este foi acusado por Cabral de só fazer música e poesia sobre amor, tema mais que batido. Moraes respondeu a Cabral que então, era melhor sair fazendo poesia sobre pedra, mato e barranco. Vemos como dois erros produzem um acerto perfeito pra quem está de fora.

Aliás, falar de Vinícius é complicado demais e meu parco conhecimento me obriga a calar a boca. Um compositor excepcional, é claro (raríssimos na história da música entendiam de melodia como ele), um poeta que demonstra talento... mas novamente, não consegue provocar emoções profundas em quem o lê (falando apenas do poeta) - é tudo tão "arte do momento" que não há artista, há apenas o cotidiano prosaico e desanimador que o cria.

E agora, Drummond? A novidade modernista acabou, a luz apagou, o povo enjoou, a noite esfriou, e agora, Drummond? Com certeza, só continua sendo lido pois cai no Vestibular - tinha uma questão sua na Fuvest, na Fuvest tinha uma questão sua. Eu nunca vou me esquecer desse fato: tinha uma questão sua na Fuvest, na Fuvest tinha uma questão sua! Continuando a Máfia dos Andrade, de Mário, que foi seguido por Oswald, que foi seguido por este Carlos Drummond, que foi seguido pelos filhos dos Andrade, enquanto Doistoiévski que é bom nem entrou na história.

Tal foi a encheção moderna que mesmo os setores mais burros da sociedade (geralmente, artistas de quinta que estão sempre na mídia como "insurgentes" mas nunca leram Bakunin) ficaram de ressaca. Daí pra surgir a Tropicália, com antas como Chaetano Melloso, Gilberto Gil (que conseguiu virar ministro!!) e Maria Bestânia foi um passo. Seu ideal? Sei lá! Era pegar um violão, fumar unzinho e faturar em cima de trouxas que chamavam isso de "boa música" (não é só porque Beatles é um lixo que tudo que não é Beatnick, deixa de ser). De Gilberto Gil:

"Nos meus retiros espirituais descubro certas coisas tão normais
Como estar defronte de uma coisa e ficar
Horas à fio com ela, bárbara, bela, tela de TV
Você há de achar gozado Barbarela dita assim dessa maneira
Brincadeira sem nexo que gente maluca gosta de fazer"

Boa. Se teve algo que não peguei, foi o nexo mesmo. Mas mudou minha vida. Pra que ler Camões depois desta?!

Nota: A Vara do Juíz da 69.ª Câmara de Tortura do Direito Matrimonial de Curitiba me proibiu de falar de Chico Buarque. Minhas condolências.

Algumas rápidas ressalvas, pra quem ainda está acordado. Chamar Fernando Pessoa de "modernista" é um insulto. Seu heterônimo mais conhecido por essas bandas, Alberto Caieiro, só é lido por ser, aparentemente, fácil. Não é. O molde dele é oriental. A complexidade não está na palavra, mas no pensamento que ela evoca. Assim como o autor ocidental analisa o mundo e o regurgita criado por si, Caieiro, como os orientais, pega uma gota de chuva e faz com que o leitor crie uma tempestade dentro de si. Será que seus fãs por aqui percebem isso?

Sem falar ainda nos versos de Álvaro de Campos...

"Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento.
E ver passar a vida faz-me tédio."

Moderno, não?

Outra mal entendida é Clarice Lispector. Tão "moderna" que começa seus livros agradecendo a Schopenhauer... o processo é o mesmo que o de Pessoa - pena que estava na hora errada e, principalmente, com as companhias erradas.

Mas o principal é Marcel Duchamp. Destruiu a arte. Dadaísta por excelência. Mas não vou falar mal dele, embora isso choque até quem esteve do meu lado até agora. A diferença aqui é que Duchamp nunca se levou a sério. Nunca se achou "reformista" da arte por pintar um bigode na Mona Lisa e escrever L.H.O.O.Q., que produz os mesmos sons, em francês, de "Ela tem o rabo quente". Nunca colocou um mictório numa exposição e disse que aquilo era arte. Ele perguntou. Duchamp não foi o problema. O problema foram seus seguidores.

Concluo tudo com os versos de uma das pessoas mais inteligentes que conheço, minha grande amiga Anya, que com um longo poema em versos alexandrinos perdeu um concurso de poesia para um grande "novo gênio" moderno, que escreveu simplesmente

Olhei,
Vibrei,
Dancei.
E a noite?
A noite parou.

Como vingança, fez a paródia genial e muito mais interessante:

Forcei,
Enrubesci,
Caguei.
E a merda?
A merda fedeu.

Não se fazem mais modernistas como antigamente.

9 pessoas leram e discordam:

Diego (Lujinha) disse...

Nossa!!!!!!!! Otimo texto!!!! É de deixar qualquer apaixonado pelo modernismo sem argumentos... de quebrar a perna.. Ainda bem que nao sou mto a favor mesmo e assim nao entramos em conflito hehehehehe... Principalmente na questao da pintura, adorei o q vc escreveu!!!! Eu nao entendo o q eles veem de modernista em quadros da Tarsila... So posso concordar com Lobato... Graças a D´us que vc nao pos Pessoa entre os modernistas tb!!! Senao ia ter briga hehehehehehe... EU AMO ELE... E se a referência "Será que seus fãs por aqui percebem isso?" é, em parte, dirigida a mim, respondo: SIM, PERCEBO! Hehehehehehehe... Bela descrição da gota de chuva e da tempestade... Sem palavras! De parabéns!!!

Anônimo disse...

soh tenho uma coisa a dizer!!!
olhei,
Vibrei,
Dancei.
E a noite?
A noite acabou... demorei muito pra ler isto aqui quando vi jah era 5h da manha!!!

Beatriz disse...

É uma bela crítica! Satisfatoriamente, eu concordo com a grande maioria dos argumentos. A tela do burro é uma prova irrefutável de quão distorcida vem sendo a idéia de arte, ultimamente. E os poemas que você mencionou despertam novamente a minha revolta contra os professores e elaboradores de provas de vestibular que nos obrigam a desperdiçar anos decisivos com esse tipo de leitura, enquanto há tantas outras fontes que poderiam contribuir muito mais à formação dos jovens.
Contudo, há ainda alguns “injustiçados” que eu sou compelida a defender. Admito que sempre me emociono com o trecho do “Morte e Vida Severina” em que nasce a criança, por exemplo. E concordo com o Diego: ainda bem que você fez algumas ressalvas, no começo e no fim do texto, restringindo a abrangência do Modernismo em questão.
Mas o que eu mais gostei de tudo foi sua consideração de natureza jurídica. Observação muito acertada, muito prudente. Os juízes dessa vara têm bom senso! :)
Beijos, beijos...

anya disse...

Danke pela citação.

Atualizei o High and Delirious. Dê uma olhada. Existencialista demais, mas... oh well...incompetência.

Küsse

Lady disse...

AUSHAUHUASUHUAHUHASAS adorei esse post! Valeu a pena ler :P
O final desse post é hilário. sauhsauhua amei!
E aff... que mala esse Álvaro de Campos. Assim como Gilberto Gayl.
¬¬ whatever...

Beijos pra ti! ;*

/*(^_^)*\ disse...

Sou triste com as palavras,pois eu só muito vaizia em relação de dizer q seu blog,esta muito legal ou muito bonito,isso eu tenho certeza que vc já sabe!!

Scarlett Angel disse...

Vc só me faz pensar que como escritora eu sou uma otima veterinaria.
Espero um dia ganhar um autografo seu, num livro escrito por vc, em algum ano de nossas vidas, quem sabe sabe ainda nesta década. Nhá!

Lady Drago disse...

Passei só prá dizer q faço minhas as palavras da Scarlett Angel... exceto na parte da veterinária! (hehehehe!!)

Bjs, qrido!
=D

Lonely Star disse...

Nhay... falei que eu ia ler...
ueheuheueheuehue mês passado minha professora fez a gente ler João Cabral de Melo Neto... esse que fez uma crônica de um cara que tinha um furo na mão certo??!!... depois q eu li essa eu desisti de acabar e parei hehe..
inda bem q a prova foi de trio...

See ya!
Beijos fofo.