sexta-feira, abril 29, 2005

Libido: pra quê?

ouvindo: Cradle of Filth - Amor e Morte (eu juro que foi sem querer!)
frase do dia: "O casamento é uma amizade íntima, reconhecida pela polícia." - Robert Louis Stevenson

A história do Ocidente é marcada pelo fato de que a libido atrapalha o homem em tudo, até na hora de ir ao banheiro (bem, pelo menos em alguns casos).

A Guerra de Tróia inaugurou o Ocidente. A visão cristã é de que toda guerra é um pecado (sendo assim, toda vida é uma penitência), e cada guerra é a explosão dos pecados internos do homem coletivo. (É, eu também acho estranho o tanto de vezes que YHVH deu uma soraivada genocida em outros povos na Bíblia, incluindo mulheres e crianças, e nada acontece com os israelitas). Pecado de guerra?! Pensa-se logo em ira (parece o mais masculino de todos os pecados, assim como a guerra, a mais masculina das atividades humanas). Não obstante, o grande escritor José Roberto Torero (o considero um dos 5 melhores escritores vivos do Brasil) já nos lembrava, em sua grande obra Ira - Xadrez, Truco e Outras Guerras, que ira é pecado para os soldados. Nenhuma guerra se faz por ira, ninguém se odeia nos altos escalões da diplomacia ("a continuação da guerra por outros meios" - Chu En-Lai), só soldados odeiam, sem motivo, o soldado adversário. As guerras se fazem por inveja, soberba, preguiça, gula, avareza... até mesmo por luxúria. A história do Ocidente começou com uma guerra luxuriosa por uma tal Helena de Tróia. Só podia dar no que deu.

A verdade é que este sentimento platônico de amor (não quero dizer amor irrealisável ou romântico, se alguém vier aqui falar mal de romantismo, teremos guerra! e por ira!), aquele de "só podemos amar quem é igual ou superior em nossa hierarquia, assim, os escravos se amam ou amam os outros, as mulheres amam os homens e demais superiores, os homens amam as sacerdotisas e superiores, as sacerdotisas amam os deuses e os deuses só se amam entre si" é "apenas um truque sujo em que a natureza nos faz cair para assegurar a continuação da espécie" (W. Somerset Maugham). Ou, já que já passei da quarta citação no terceiro parágrafo, "A galinha é apenas o meio que o ovo encontrou para produzir outro ovo" (Samuel Butler, niilismo inigualável). Este amor conjugal (ágape, para meus amigos helenistas) é algo não-mais-que fisiológico.

Me entristece perceber que muitas pessoas se consideram as "modernosas" só por irem na balada e rodarem a banca. A "falta de compromisso" é característica de uma pessoa "livre", elas dizem. Livre? Isso é se prender ao que a natureza nos fadou a ser. Já comprovaram que nossos padrões de beleza se baseiam única e exclusivamente em nossa capacidade de distinguir no próximo um provável reprodutor capacitado para que nossos futuros filhos cresçam com segurança.


Cabe aqui uma pergunta que me tirou o sono quando soube disso: eu nunca quis ter filhos, desde que era pequenininho. E também nunca dei um pingo de valor pra bunda, que definitivamente, ao contrário do resto da nação, não é minha preferência. Existe alguma ligação entre as partes?

Mas o fato é que isso não é amor, o sentimento. É apenas libido, aquela coisa de psicólogo. A libido é fisiológica: serve para o ovo produzir outro ovo. O amor é psicológico e idiossincraticamente abstrato - obtemos prazer com o outro, então, deixamos nossa felicidade nas mãos dele, ao ponto da entrega (o exato contrário do que é o amor para os namoradinhos que vemos por aí): se o amado se sente bem longe do amante, este o deixa ir, pois fica feliz com a felicidade do outro. A felicidade está nas mãos do outro. Assim como, é claro, "O Inferno são os outros" (Jean-Paul Sartre, que expos essa teoria sobre amor que vos regurgito).

O amor verdadeiro (Amor volat undique) está ligado ao prazer, mas não à posse. A libido, além de estar ligada, não à posse, mas ao possuir, é instintiva. É por isso que animais fazem sexo - podem até sentir prazer com isso, mas, com a sábia excessão dos golfinhos, nenhum outro animal faz sexo por prazer além do homem. ("O homem um animal político" - Aristóteles [obrigado pela correção, Bia!], ou "O homem político é um animal" - Ivan Lessa)

Flecha de amor dói e dói pra caramba. Se não doesse, não seria flecha, e se não fosse flecha, não seria o Cupido verdadeiro que dispararia. Lembrem-se: quem sussurra amigavelmente em nossos ouvidos sem dor alguma é Eros.

O que diferencia uma relação íntima amorosa de outra ainda "de brincadeira", é o sofrimento. No suffering, no love. E o sofrimento advém da entrega - seu ser está se mesclando ao ser do próximo... ou do longínquo ("Antes vos aconselho a fuga do 'próximo' e o amor ao longínquo!" - Nietzsche) a ponto de seus sentimentos e interesses se fundirem. Ele, o sofrimento, surge por falta do outro e do seu prazer, e quando o outro está sofrendo ele próprio. Surge quando amamos tanto o outro e, mesmo assim, ele nos rejeita - e devemos ainda ficar felizes com a felicidade do outro, mesmo que ela só exista com a nossa distância.

O homem (ser humano, aquela velha conhecida forma inferior de vida, sem função em qualquer ecossistema, de lugar na escala evolutiva entre o helminto e a planária) não dá mais valor ao amor achando que é coisa de casal casado pela Igreja Católica Apostólica Romana, pregadora do "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jesus Cristo?!). Se há algo desprovido de amor, essa coisa é o Cristianismo e a Igreja.

A moral cristã se baseia na propriedade (como já expus no meu tópico "Os 10 Mandamentos" e, afinal, o que é mesmo que significa TFP?!) - como pode haver um sentimento de entrega dentro de uma instituição cristã como o casamento?!

O que estropia o espírito é que a própria idéia de "relacionamento" está chafurdada no Cristianismo. Namorados também usam alianças como noivos, simbolizando o infinito (um círculo sem começo e sem fim). Se nossos tempos fossem mesmo modernos, já usaríamos coleiras e algemas!

Quando se pensa em amar alguém (ainda que nem sempre consigamos amar só uma pessoa - o homem também é um animal poligâmico, ninguém mandou vir do macaco [que também se masturba] ao invés do lobo [única fêmea completamente fiel entre os mamíferos]), já se pensa naquela coisa piegas da Igreja. Alguém "pra casar" (essa não foi citação!). Lemos Goethe, Schiller, Byron, Stoker e Azevedo e eles nos parecem babões. Mas há uma diferença fundamental: os românticos não-pedantes, que conheciam o verdadeiro sentimento, sentiam um prazer que nós, conhecendo mil bocas e nenhum coração, ainda não desfrutamos.

Enquanto um sentimento belo está socialmente alinhado a uma instituição que se valeu de seu nome para plastificar e volver cada vez mais o homem ao seu estado rebanhesco, a saída nos parece apenas caírmos na farra e vociferarmos que o amor (que parece um sentimento tão... de Deus) não existe, como Aquele.


A verdade é que o comando onipresente de um moralismo doutrinário por parte dos repetidores da palavra "amor" (tá, eu sei que repeti pra cacete essa palavra aqui) só fez com que a verdadeira chama deste sublime encanto se evanescesse.

A libido exposta, esta vontade de corpos e carne sem um espírito por dentro, é uma anarquia infantil de irresponsáveis que não sabem que o valor do que palpita dentro de nós é muitas vezes maior que o valor que se obtém com nossos corpos, para fora de nós. Não entendem que sofrimento, saudade, preocupação e demais sentimentos "negativos" são preços baixos a se pagar por tão elevado grau de arrebatamento. ("As pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada" - Oscar Wilde, não achava que fosse conseguir citá-lo a meu favor defendendo esta idéia)

Vemos o homem voltar a ser selvagem, não no sentido pagão e abençoado, mas no sentido carniceiro e baixo. Vemos um enlance de línguas com muita saliva e poucas palavras, mãos revestidas de anseio e nenhum carinho, corpos embrulhando volúpia e nenhuma alma. "Sexo é pra proletário" - Nelson Rodrigues.

O calor humano sufoca, e agüentar essa busca incessante de mais ardor por quem já vive no estio dos vapores infernais degrada a mente. Libido só serve para termos mais filhos. A Guerra de Tróia, como nos conta Homero, foi criada pelos deuses para conter a população da Terra que estava gigante naquela época. Que dirá hoje, e isso porque matamos até os deuses! É só passarmos a buscar sentimentos e paixões profundas dentro de nós mesmos, e deixarmos só aqueles privilegiados que a encontraram e merecem levá-la adiante as desfrutarem, que a carência de nossa hiperpopulação subdesenvolvida e burra irá deixar de existir. Basta voltarmos a ser homens de verdade e fazermos mais guerra e menos sexo.

A solução (utópica) para o mundo seria lutar com nós mesmos e exigirmos o assexualismo de nossos corpos.

"As duas piores coisas da vida são o ato sexual e a transpiração" – Kant

Eu sempre odiei Kant desde que li algo dele além do que estava escrito n´O Mundo de Sofia. É quase com desagrado que sou obrigado a concordar com o polaca.

segunda-feira, abril 18, 2005

Vida Universitária

ouvindo: Collection D´Arnell Andrea - Aux Glycines défuntes
frase do dia: "Sou livre de qualquer preconceito. Odeio todo mundo, indistintamente." - W. C. Fields

Meus poucos dias na maior faculdade do país já contribuíram em demasia para minha natural ojeriza pela humanidade. Já imaginei que adentrar um antro abarrotado de remanescentes da geração Beatnick (aquele povo que acha que João Cabral é poeta e que Fidel Castro é um exemplo a ser seguido) seria penetrar no quid da decadência intelectual (e estética, e criativa, e etc...) daqueles que se arrogam o título de "elite intelectual" e produtiva, embora acham que estão falando do Nascimento quando alguém cita Milton sem o John na frente.

As situações em que sou flagrado arrancariam urros de ódio de uma pedra se ela pudesse falar. É surpreendentemente assombroso o patamar que o estro genial humano é capaz de alcançar, as tessituras que é capaz de costurar nos silêncios em que qualquer vírgula se torna uma sonoro gongo chinês clamando os soldados à luta. É um professor bem-intencionado soltar uma frase que deixe margem para alguma réplica e a escatologia mental humana vêm à tona em sua pior forma.

A princípio, até fazia sentido alguém tentar conquistar um espaço no coração generoso dos professores - tal xaveco é conhecido no meio acadêmico como "iniciação científica", algo como "sou seu escraviário para pesquisas infrutíferas bancadas pelo Governo por um tempo em troca de nota e, é claro, um salário mínimo por mês pra tomar capuccino no lugar de um expresso comum" - mas depois das primeiras semanas, é um achincale ao bom senso querer chamar a atenção com uma pretensa erudição que acaba deixando o Rei cada vez mais nu (é, meus caros, ler algo feito antes do Modernismo ferrar com tudo vale a pena).

Não me bastasse um jovem cidadão querer chamar a atenção dos nossos pobres professores de Lingüística logo na primeira aula (tá, os professores, às vezes, são um porre, mas pra ter de ouvir aquilo, dou um caldinho de carne de segunda pra eles) com seus longos conhecimentos sobre Saussure e Chomsky (que, obviamente, não passavam de algo que qualquer muriçoca pode descobrir em 5 minutos no google), ter de agüentar o mesmo infeliz querendo praticamente ter aulas particulares sempre que a oportunidade surge é de doer.

É claro, acho que ele não entendeu a mensagem do meu olhar faiscante dirigido a ele, coisa como "Filhinho, quem dá aula é o professor e qualquer eqüidna conhece os novos ramos a que Noam Chomsky levou a Lingüística... e de Lingüística Clínica, você entende? Se não, acho melhor ficar quietinho..."

- Ah, inferno! Saussure, Chomsky? Só falta alguém querer me impressionar dizendo que já leu Martinet e Barthes!! Soletra Hjelmslev aí que eu quero ver! E pronuncie "slév" no fim que vai ter pau! Em dinamarquês, é "sleu", porra! (nota posterior: by Roska. Assim esse povo pára de me encher.)

Os ânimos andam passando da tolerância para o escárnio e, finalmente, para o rancor. Custa muito se tocar? Quando um aluno interrompe o professor apenas para concordar com ele, não posso crer que ele queira fazer outra coisa além de chamar a atenção.

- Olha, professor, eu li o livro do Antônio Cândido e ele expôe essa mesma teoria de que o senhor falou...

Que bom, né?! Já pensou se fosse diferente, numa universidade calcada no trabalho do cara?! Será que alguém quer aplausos com tal demonstração de leituras tão surpreendentes?! Ler dois livros a mais do que os exigidos na Fudest não faz de ninguém um gênio.

- Então, professor, mas o que eu entendi do texto foi que...

Filhinho, foda-se o que você entendeu do texto! Você não entendeu nada, mesmo!

As coisas beiram o teatro do absurdo de Ionesco quando alguém pede um exemplo na aula. Ou pior, quando algum íntegro educador apenas cita algo, e a sala pára de pensar na aula para pensar em milhares de exemplos possíveis que, por uma estranha lógica, parecem que necessitam ser expostos, com vida própria...

Metáforas como uma linguagem específica de um dialeto:

- Então, eu liguei pra minha mãe lá no Maranhão ontem, e ela disse que estava ferrada com nossa vizinha por [segue-se uma explicação não tão curta sobre os motivos], e ela disse que ia "quebrar a castanha na cara dela". Eu gostaria de saber o que vocês entendem por isso aqui.

(Jesus, como pude viver sem saber disso até hoje?!)

Os usufrutos de Hollywood na reambientação histórica:

- Mas precisamos ver que os estúdios fazem seus filmes voltados pra adolescentes...
- O que um roteirista quer é dinheiro, não uma adaptação fiel da Ilíada...
- Só pelo fato de "Tróia" ter o Brad Pitt já indica que o fator visual do filme...

Claro, claro... mas será que alguma pessoa das 80 e tantas presentes precisava mesmo ouvir isso para chegar a mesma conclusão?

Variação lingüística, norma culta da gramática e norma popular (o mesmo infeliz de cima):

- Ah, então, eu fui na Kolumbus comprar uma calça e o vendedor disse que eu falo complicado. Aí eu disse: "Não, eu tô falando normal..." e ele disse: "Não, o senhor fala muito complicado!"

Poxa, parabéns, seu dialeto é melhor que o de um vendedor da Kolumbus! Já pensou em escrever um livro? Afinal, pensei o mesmo quando o cobrador do meu ônibus ficou impressionado com meus conhecimentos sobre o Poder Executivo que tinha acabado de adqüirir lendo o "Metrô News"...

É dar um pouco de corda e o bicho se desembesta como uma máquina de pinball dando tilt. Foi o mesmo soltar algumas pérolas que fizeram a aula parar por cerca de 10 minutos apenas para se discutir os exemplos dados por ele (bem, não lembro quais foram, aproveitei o vácuo existencial para tirar um mezzo cochilo), o professor (um dos mais interativos que tenho... infelizmente, exatamente na aula que tenho de aturar as piores criaturas juntas) pergunta:

- Se alguém está no ônibus, do seu lado... principalmente ônibus de viagem... e quer puxar assunto, conversar, mas sem falar... o que ele faz?

A orquestra de sugestões partiu de todos os cantos da sala:

- Tosse...
- Abre um jornal...
- Fica se mexendo...

O aprendiz de parvo, sem perceber que seus 15 minutos de fama se acabaram, e ainda acreditando que pode falar algo engraçado, dispara:

- Enfarta!

Enfarta?! Essa deixou até o ventilador boquiaberto. Enfarta assim, de enfartar mesmo? Cruzes... isso que é carência afetiva. Tem gente por aqui quase enfartando para angariar algum elogio, mesmo...

Variação Lingüística de novo. Comentários sobre a moderna "literatura":

- Acredito que ninguém aqui deva usar, hoje em dia, o pretérito mais-que-perfeito. Existe alguém que escreve aqui nessa sala? [Nota: pergunta bem cruel para se fazer numa sala de Letras...] Ah, sim, aqui vemos uma colega de vocês que escreve poesias, uma poetisa [Nota: cof, cof...] que ainda pode publicar seus escritos no Jornal da USP... você não deve usar o pretérito mais-que-perfeito em suas poesias, não é?
- Ahn... eu não lembro qual é o pretérito mais-que-perfeito....

Grrrrr! Pudera eu empalar essa bactéria e tê-lo-ia feito! Quisera que os professores de português hoje em dia guardassem melhor a lembrança do saudoso Jânio Quadros... Fi-lo porque bebi-lo...

É o triste fim de uma instituição que há muito primou pela excelência e disciplina, mas se rende a cada dia à "justiça social" e ao pedantismo típico de uma liberdade de conteúdo que cada vez mais produz apenas diletantes com muito a falar e pouco a dizer. Quando vejo o destino cruel dos escritores no Brasil, percebo que essa crueldade é mera basófia (thanx, Fábio) propagada por quem quer se fazer de coitadinho quando percebe que sua vasta inteligência não é de muito valor no nosso querido Lebenswelt (ou Assiah, em termos cabalísticos). Escritores bons têm futuro garantido em nosso meio. Agora, achar alguém que ainda tenha mais ganas em criar algo novo do que vomitar motejos verborrágicos a troco de mera aparência...

De todo escrito, só me agrada aquele escrito com o sangue. Escreve com o sangue, e descobrirá que o sangue é espírito.

Nietzsche me salve.